As usinas elétricas a carvão europeias aumentaram seus lucros em meio ao encarecimento do gás, informou a Bloomberg nesta sexta-feira (16).
Durante as últimas décadas, usinas a carvão foram gradualmente fechadas no continente para, entre outros motivos, mitigar os efeitos do aquecimento global. No entanto, agora que os preços do gás natural subiram e a geração de energia solar, por outro lado, diminuiu, a Europa vê-se obrigada a aumentar a produção de energia convencional diante da chegada do frio.
Segundo a Energy Aspects Ltd., na Alemanha, um dos indicadores de rentabilidade da geração de eletricidade a partir de lignito, a forma de carvão mais poluente e ineficiente, disparou este mês, atingindo 64 euros por megawatt-hora — um valor que, há um ano, era praticamente zero.
"As usinas elétricas a carvão estão se beneficiando consideravelmente da escassez de oferta nos mercados de energia europeus, com toda a capacidade disponível em operação", afirmou Michael Schrettle, analista da consultoria do setor Volue AS.
Posição mais vulnerável
Os números revelam uma verdade incômoda para os legisladores europeus e seus planos de transição energética. O fornecimento de energia de reserva, proveniente de fontes convencionais, continua sendo crucial para compensar a intermitência da geração de energia eólica e solar.
De acordo com dados da Ember, a Alemanha e a Polônia — onde se concentra a maior parte das usinas a carvão ainda existentes na Europa — foram responsáveis, no ano passado, por mais de 74% da geração de eletricidade a partir desse combustível na União Europeia. No mercado elétrico comercial alemão, cerca de uma dezena de grandes unidades de geração a carvão continuam em operação.
No entanto, é precisamente Berlim que se encontra na posição mais vulnerável neste momento. A Alemanha desativou seus reatores nucleares e, atualmente, planeja recorrer cada vez mais a fontes de energia renováveis para abandonar gradualmente o uso do carvão. Ao mesmo tempo, as novas usinas a gás, destinadas a garantir o suprimento elétrico de reserva, ainda não foram construídas; por isso, em períodos de baixa geração de energia renovável, as usinas a carvão existentes continuam sendo fundamentais para o país.
Crise energética
Tanto a decisão da UE de romper, de modo geral, com os hidrocarbonetos russos baratos, quanto a impossibilidade de fornecer gás diretamente por meio do Nord Stream — que foi alvo de uma explosão em 2022 — provocaram uma crise energética no bloco europeu.
A recente escalada no Oriente Médio fez disparar os preços do petróleo e do gás. Como resultado, a Europa enfrenta uma energia ainda mais cara, pressão sobre as famílias e as empresas, fechamento de indústrias, demissões e uma economia cada vez mais debilitada.
As normas da UE obrigam os países-membros a preencher suas reservas de gás até, pelo menos, 80% da capacidade nacional até dezembro — um procedimento que, normalmente, é realizado durante o verão, quando a demanda e os preços costumam ser mais baixos. Atualmente, os depósitos de gás estão com 73,7% de sua capacidade preenchida. Em um cenário de escassez de GNL (gás natural liquefeito) proveniente do Catar, somado a temperaturas abaixo da média, o preço do gás pode chegar a 110 euros por megawatt-hora durante o inverno no hemisfério norte.