A Espanha voltará às urnas em 29 de novembro, quase oito meses antes do fim ordinário da legislatura. Presidente do Governo (primeiro-ministro), o socialista Pedro Sánchez anunciou o adiantamento eleitoral na segunda-feira (5), e, um dia depois, o decreto de dissolução do Congresso e do Senado foi publicado oficialmente.
Mas a data escolhida para convocar as eleições também tem uma leitura estratégica. Até poucas semanas atrás, boa parte do debate político espanhol girava em torno de temas especialmente incômodos para o governo. Entre eles, uma grave crise migratória em Ceuta, vários processos judiciais ligados a antigos dirigentes socialistas e pesquisas que davam vantagem crescente ao bloco do conservador PP e do ultradireitista Vox.
Somado a isso, ocorreu algo que mudaria o panorama político de forma repentina, devido ao seu enorme poder simbólico.
O despejo que abalou a Espanha
Maricarmen Abascal, de 87 anos, morreu nesta quarta-feira (7), sem ter conseguido voltar ao apartamento em Madri onde viveu por mais de 70 anos. Segundo o El Diario, ela faleceu no Hospital Gregorio Marañón, na capital espanhola.
A morte também foi confirmada pelo Sindicato de Inquilinas e Inquilinos de Madrid, do qual Maricarmen fazia parte. "Maricarmen, não está sozinha, nada nos deterá. O Sindicato é família, vamos lutar por isso", escreveu a organização em uma mensagem publicada nas redes sociais.
A idosa vivia de aluguel há mais de setenta anos no mesmo apartamento, em Madri.Em 23 de setembro, foi despejada após uma imobiliária comprar o imóvel e quintuplicar o aluguel.
O caso provocou uma reação social extremamente rápida. Milhares de pessoas foram às ruas de Madri sob o lema "Nem uma Maricarmen a mais", e os protestos se espalharam por diversas cidades. Um acampamento na Puerta del Sol, no centro da capital, cresceu até reunir dezenas de coletivos e virou o principal símbolo das manifestações pelo acesso à moradia.
O governo reagiu aprovando às pressas dois decretos com medidas sobre aluguéis, proteção contra despejos, regulação de aluguéis temporários, limites a certas operações especulativas e renovação de contratos.
Mas ambos foram rejeitados em 2 de outubro no Congresso por PP, Vox e Junts — o decreto principal caiu por 178 votos a 172.
Essa derrota foi o gatilho imediato da antecipação eleitoral, mas não explica sozinha por que Sánchez decidiu convocar as eleições agora.
Uma "janela de oportunidade"
No Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), partido de Sánchez, começaram a falar abertamente de uma "janela de oportunidade". Dirigentes socialistas disseram à imprensa que o caso Maricarmen mudou o cenário político em poucos dias. Um deles resumiu: duas semanas antes, o partido estava "preso na crise de Ceuta", mas depois da briga pelos decretos de moradia, voltou a ver chance eleitoral. Outro admitiu que a moradia tirou Ceuta, em parte, do debate público.
No fim de julho, cerca de 72 mil pessoas entraram em Ceuta vindas de Marrocos numa crise de fronteira sem precedentes. Isso sobrecarregou a cidade, gerou críticas ao governo de Sánchez e colocou a imigração no centro do debate nacional. Uma pesquisa da 40dB mostrou que 63% reprovavam a gestão de Sánchez e viam o Vox como o partido mais capaz de lidar com a imigração.
LEIA MAIS: Ceuta: Avalanche migratória — RT Reporta
Aos problemas com a imigração somavam-se os casos judiciais, sendo Ábalos o mais grave. O ex-ministro socialista José Luis Ábalos foi condenado este ano a 24 anos e três meses de prisão por comissões em contratos públicos na pandemia. Seu sucessor no PSOE, Santos Cerdán, também é investigado em outros casos.
A moradia, porém, empurrou esses temas para segundo plano — e para um terreno mais favorável à esquerda. É hoje o segundo problema que mais preocupa os espanhóis, atrás só da inflação. A maioria apoia medidas de esquerda: 67,5% querem limite de preços, mais de 80% querem mais moradia social e 70–75% defendem proteção contra despejos e aumentos. O PSOE é visto como o partido mais preparado para a crise (contra 18,5% do PP e 14,4% do Vox).
A antecipação eleitoral pode ser vista, assim, como uma aposta para fixar a campanha nesse tema — um dos poucos em que os socialistas levam vantagem — antes que a agenda mude de novo.
Eleições de blocos
O problema para Sánchez é que mudar o tema do debate não muda automaticamente a intenção de voto. Quase todas as sondagens privadas colocam o PP de Feijóo em primeiro, seguido do PSOE e do Vox. A média da televisão pública espanhola mostra: 137 deputados para o PP, 65 para o Vox — 202 juntos. A maioria absoluta é 176. O PSOE teria cerca de 104, e o Sumar cerca de dez.
A campanha começa assim: de um lado, um bloco de direita fácil de identificar, formado por PP e Vox. Feijóo quer governar e, pelos números, precisaria do apoio de Abascal.
Do outro lado, o cenário é bem menos claro. O PSOE segue como a maior força progressista, de longe, mas precisa que sobreviva um espaço importante à sua esquerda — e esse espaço está em reconstrução.
O que há à esquerda do PSOE?
Para entender a fragmentação da esquerda espanhola, é preciso voltar à década passada. A crise e o movimento 15-M, de 2011, levaram anos depois ao Podemos, que quebrou o predomínio do PSOE na esquerda. Vieram alianças, divisões e reorganizações. Em 2023, boa parte desse espaço concorreu unida no Sumar, projeto de Yolanda Díaz.
Três anos depois, o Sumar está enfraquecido. Yolanda Díaz não será mais candidata, e quatro organizações do bloco — Movimento Sumar, Izquierda Unida, Más Madrid e os Comuns catalães — decidiram relançar a aliança com novo nome: Frente Amplio. A apresentação estava marcada para 17 de outubro, mas Sánchez adiantou as eleições antes de a refundação terminar.
O Frente Amplio ainda não tem candidato nem composição fechada. Más Madrid quer protagonismo: Ada Colau confirmou convite para liderar, e a ministra Mónica García está nas negociações. A grande dúvida é o Podemos, que se separou do Sumar e aposta em Irene Montero. Ela propôs primárias abertas para 14 e 15 de outubro; o Sumar rejeita o método, mas não a aliança. A Izquierda Unida quer evitar ruptura. O prazo para registrar coalizões termina em 16 de outubro.
O sistema eleitoral espanhol divide os 350 assentos por província e prejudica partidos pequenos. Duas listas de esquerda separadas podem somar bons votos no país e ficar sem representação em muitas províncias. A união ou divisão entre Frente Amplio e Podemos pode decidir vários assentos — e até a possibilidade de governar.
Sánchez convocou eleições nas quais, no papel, não é favorito. PP e Vox lideram quase todas as sondagens, com eleitorado mais mobilizado e fiel. A aposta do presidente é tentar mudar esse cenário nas próximas semanas.