Experimento sugere benefícios inesperados do café descafeinado

Estudo mostrou que as duas versões podem produzir efeitos distintos no cérebro, da memória ao humor.

O café descafeinado produziu melhorias significativas em dois testes de memória em um pequeno experimento, um efeito que não foi observado entre os que beberam café com cafeína. Os resultados sugerem que alguns componentes do café diferentes da cafeína podem influenciar o funcionamento do cérebro.

O estudo foi realizado por neurocientistas do laboratório onde trabalha o autor do estudo John Cryan, da Universidade College Cork, na Irlanda, e publicado em abril na revista Nature Communications. Os pesquisadores acreditam que um dos possíveis mecanismos pode estar relacionado com a microbiota intestinal e sua comunicação com o cérebro.

"O café é mais do que cafeína: é um fator dietético complexo que interage com nossos micróbios intestinais, nosso metabolismo e até com nosso bem-estar emocional", explica o neurobiólogo especializado em estresse John Cryan, de College Cork.

Duas semanas sem café

O experimento foi realizado com 31 pessoas que habitualmente bebiam entre três e cinco xícaras de café por dia. Os participantes deixaram de consumir seu café habitual durante duas semanas e posteriormente foram divididos em dois grupos: um recebeu café descafeinado e o outro café com cafeína, sem que soubessem qual estavam tomando.

Depois de três semanas consumindo quatro porções diárias de café instantâneo, ambos os grupos mostraram mudanças significativas na composição de seus microorganismos intestinais. Os participantes também relataram menores níveis de estresse, depressão e impulsividade após voltar a consumir café mesmo quando se tratava da versão descafeinada.

No entanto, os efeitos sobre a memória foram diferentes: quem bebeu café descafeinado apresentou melhora em várias etapas de um teste de aprender e recordar palavras e cometeu menos erros em outro teste que avaliava a capacidade de recordar localizações. O grupo que consumiu café com cafeína não mostrou melhorias significativas nesses testes.

A ligação entre intestino e cérebro

A cafeína pode atuar diretamente sobre o tecido nervoso, mas o café contém mais de 1.000 compostos diferentes. Entre eles estão os polifenóis, substâncias de origem vegetal que podem servir de alimento para determinados microorganismos intestinais.

Os pesquisadores suspeitam que esses compostos podem alterar a microbiota que, ao modificar a atividade das bactérias intestinais ou os compostos que elas produzem, gerariam uma cadeia de mudanças que terminaria influenciando a função cognitiva.

O café com cafeína sim produziu alguns efeitos que não apareceram com o descafeinado. Só esse grupo mostrou uma redução da ansiedade e do mal-estar psicológico, além de melhorias na atenção e no estado de alerta. Isso sugere que a cafeína poderia ter efeitos específicos sobre a cognição e o humor.

Os pesquisadores advertem que o estudo é reduzido e preliminar, por isso ainda não podem determinar por que o café descafeinado produziu melhorias na memória. Cryan sublinhou que os resultados sugerem que o café, com ou sem cafeína, pode influenciar a saúde de formas diferentes mas complementares.