'Não faz nada de graça': coordenador de campanha de Lula acusa acordo entre Temer e Flávio para salvar Moraes

Aliados de Lula suspeitam de negociação envolvendo aposentadoria antecipada do ministro. PL nega acordo e afirma ter votos suficientes para processo no Senado em 2027.

Depois da publicação de um vídeo nas redes sociais do ex-presidente da República Michel Temer, na segunda-feira (5), declarando apoio ao candidato Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições presidenciais brasileiras, uma especulação ganhou força entre aliados do presidente Lula.

O advogado Marco Aurélio de Carvalho, coordenador da campanha petista em São Paulo e amigo pessoal de Lula, citado pelo jornal Metrópoles nesta quarta-feira (7), afirmou que Temer "não faz nada de graça".

"É um velhaco da política. Deve ter feito um acordo para salvar o seu ministro, que, inclusive, trabalhou para que ele fosse contratado pelo Banco Master”, afirmou Marco Aurélio.

Segundo o coordenador, a publicização do apoio do ex-presidente a Flávio Bolsonaro não implica que a articulação de Temer para a candidatura oposicionista começou somente neste momento, acusando-o de se movimentar em favor da candidatura do PL desde o primeiro turno.

"Tentaram colocar o Alexandre de Moraes no nosso colo, mas, na verdade, ele nunca saiu do colo do Temer”, declarou.

Na mira da direita

O risco de perda do cargo e de investigação criminal do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, implicado no caso Master por indícios de relação íntima com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, tornou-se uma das principais pautas da direita brasileira nos últimos meses.

Indepentemente do resultado das eleições presidenciais no dia 25 de outubro, a vitória acachapante do PL e legendas aliadas para o Poder Legislativo tornou concreta a ameaça contra o ministro, que se tornou um dos mais notórios oponentes políticos do bolsonarismo pela atuação protagonista no inquérito das fake news, na condenação de envolvidos no ataque a Brasília de 8 de janeiro de 2023 e na prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro no caso da trama golpista.

Moraes foi indicado por Temer em 2017 após ocupar o cargo de ministro da Justiça e Segurança Pública em seu governo.

O partido de Bolsonaro calcula dispor de 49 votos no Senado para aprovar seu impeachment e retirá-lo de sua cadeira no Supremo, faltando somente cinco para os 54 necessários. Uma ofensiva contra o ministro Flávio Dino, indicado por Lula, também estaria sendo avaliada.

O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), expoente liderança aliada ao clã Bolsonaro, foi categórico no prognóstico. "A gente vai impichar ele com o novo Senado. Isso não tem negociação", afirmou à coluna de Igor Gadelha na terça-feira (6), poucos horas após a decisão de Moraes que conferiu o regime semiaberto a Débora do Batom, presa por crimes relacionados ao 8 de janeiro.

Uma liderança petista ouvida pelo Metrópoles sugere que o arranjo envolveria aposentadoria antecipada de Moraes em 2027, antes de assumir a presidência do Supremo, deixando o posto para Nunes Marques — indicado por Bolsonaro — e esvaziando a mobilização no Senado pelo impeachment.

Tanto interlocutores de Temer quanto de Flávio negam qualquer negociação, segundo a reportagem.