Notícias

Banco Mundial fecha acordo com grupo ligado à CIA para enviar funcionários dos EUA ao Brasil

A parceria prevê oito vagas no Brasil, Panamá e Colômbia e doação de US$ 500 mil para financiar participantes do programa.
Banco Mundial fecha acordo com grupo ligado à CIA para enviar funcionários dos EUA ao Brasil

O Banco Mundial assinou um contrato com a NobleReach, organização americana ligada à CIA, para enviar funcionários dos Estados Unidos aos escritórios da instituição no Brasil, Panamá e Colômbia.

A entidade também ficará responsável por treinamento e mentoria dos participantes. A informação foi publicada pela Folha de S.Paulo nesta terça-feira (22).

Pelo acordo, obtido pela Folha, a NobleReach financiará oito funcionários por meio de uma doação de US$ 500 mil (R$ 2,5 milhões) ao fundo truste do Banco Mundial.

São duas vagas em Brasília, duas em São Paulo, duas no Panamá e duas na Colômbia, nas áreas de análise financeira, infraestrutura e administração.

As vagas da parceria entre o World Bank Explorer Program e a Noble Reach Scholars são exclusivas para cidadãos dos Estados Unidos.

O Banco Mundial não especificou se os participantes atuarão em projetos de minerais críticos e infraestrutura de tecnologia.

Ligação com CIA

A NobleReach se fundiu, em 2022, com a IQT Emerge, subsidiária da In-Q-Tel, braço de investimentos da CIA.

A organização também mantém contratos e parcerias com a NSA, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos e a Darpa, agência de pesquisas avançadas do Pentágono.

Em 2025, a fundação firmou parceria com a NSA para recrutar jovens para trabalhar na área de inteligência. Com a Darpa, mantém um acordo para desenvolvimento de tecnologias de uso dual, civil e militar.

No site institucional, a NobleReach afirma que seu programa de bolsas oferece um caminho para que talentos emergentes em ciência e tecnologia sejam empregados na comunidade de inteligência dos Estados Unidos, com conexões para vagas na NSA e intersecções com a CIA.

O acordo com o Banco Mundial gerou estranhamento entre funcionários da instituição. O banco costuma receber doações de governos soberanos, voltadas a áreas como desenvolvimento e clima, e não de organizações com atuação ligada à segurança nacional.

O Banco Mundial não consultou previamente o governo brasileiro sobre o envio dos funcionários ligados à NobleReach.

Marcos Vinicius Chiliatto, diretor-executivo que representa, entre outros países, Brasil, Colômbia e Panamá, afirmou que pediu informações sobre a diligência prévia feita pelo banco e solicitou um parecer do departamento jurídico. Ele também pediu que as contratações não fossem efetivadas até a conclusão das consultas.

Resposta do banco

O Banco Mundial afirmou que o Programa Explorers é financiado por doadores e oferece a profissionais de países desenvolvidos em início de carreira experiência prática de campo em apoio ao trabalho de desenvolvimento da instituição. Segundo o banco, há programas semelhantes com financiamento externo em parceria com organizações ao redor do mundo.

A instituição disse ainda que os participantes estão sujeitos às normas e padrões de conduta do Banco Mundial, respondem a gestores do órgão e não têm vínculo empregatício ou hierárquico com o doador.

"O acordo com a NobleReach, doador de parte deste programa, passou pelos processos padrão de due diligence, análise jurídica e institucional, e aprovação do Grupo Banco Mundial", afirmou a instituição.

Ex-integrantes da CIA e do Pentágono integram os conselhos diretivos da NobleReach. Entre eles estão Constantine Saab, que trabalhou por 18 anos na CIA e chegou à chefia de estratégia da agência, e Lisa Disbrow, ex-secretária da Aeronáutica no Pentágono.

Entre os mentores do programa parceiro do Banco Mundial estão o general Paul Nakasone, ex-diretor da NSA e ex-comandante do Comando Cibernético dos Estados Unidos, e John Raymond, ex-chefe das Operações Espaciais do Departamento de Defesa.