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Saiba como Brasil e Rússia podem dar salto estratégico em cooperações nuclear, defesa e aeroespacial

Em um relatório, Ana Livia Esteves, brasileira, professora da Faculdade de Política Mundial e Economia Mundial da Universidade Nacional de Pesquisa Escola Superior de Economia da Rússia, e Marco Fernandes, representante do Brasil no Conselho da Sociedade Civil do BRICS, descrevem os principais fatores que moldam a natureza da interação bilateral entre duas nações, bem como o potencial dessa relação.
Saiba como Brasil e Rússia podem dar salto estratégico em cooperações nuclear, defesa e aeroespacialImagem criada por inteligência artificial

As relações diplomáticas entre Brasil e Rússia vivem um de seus momentos mais dinâmicos desde o estabelecimento de laços formais em 1828, diz o relatório publicado pelo Clube de Discussão Internacional Valdai nesta quinta-feira (17).

Os autores Ana Livia Esteves, brasileira, professora da Faculdade de Política Mundial e Economia Mundial da Universidade Nacional de Pesquisa Escola Superior de Economia da Rússia, e Marco Fernandes, representante do Brasil no Conselho da Sociedade Civil do BRICS, afirmam que o diálogo entre Brasília e Moscou tem sido impulsionado pela busca comum de reformar a ordem internacional pós-1945 e fortalecer a posição de economias emergentes.

Comércio bilateral 

Após décadas de oscilações, o comércio bilateral entre os dois países alcançou um marco histórico em 2023, atingindo a meta de US$ 10 bilhões em volume de trocas. No setor comercial a relação ainda é limitada a commodities e a um grupo restrito de empresas, gerando um déficit comercial para o Brasil.

O principal motor dessa aproximação é a coordenação de ações para reformar a governança global. Para que a parceria ganhe profundidade, especialistas apontam que o foco precisa migrar para setores de alta tecnologia, como o nuclear, o aeroespacial e o de defesa.  

Desde o início do conflito ucraniano em 2022, o governo brasileiro adotou uma postura de "imparcialidade e não indiferença", baseada no respeito à tradição diplomática de não aderir a sanções econômicas unilaterais e de manter canais de diálogo abertos com Moscou.

Essa estratégia permitiu que, mesmo sob forte pressão internacional, o país preservasse fluxos comerciais essenciais, como a importação de fertilizantes russos.

Embora o governo tenha recusado pedidos de parceiros como a Alemanha para o fornecimento de munições militares, ciente do risco de sua posterior transferência para Kiev, o país manteve o foco na mediação de paz, especialmente por meio de iniciativas conjuntas com a China.

Fortalecimento dos laços

O fortalecimento dos laços com a Rússia foi consolidado em encontros recentes de alto nível. Em 9 de maio de 2025, o presidente Lula visitou Moscou para participar das celebrações da vitória da União Soviética sobre a Alemanha nazista na Grande Guerra Patriótica (1941-1945).

Em fevereiro de 2026, Brasília sediou a reunião da Comissão Brasil-Rússia de Alto Nível de Cooperação (CAN), marco importante para a administração Lula. O encontro contou com a presença do primeiro-ministro russo, Mikhail Mishustin, e resultou na assinatura de novos acordos interministeriais, reafirmando a continuidade do diálogo estratégico entre os dois países.

As discussões avançaram para setores como o nuclear, o aeroespacial e o de defesa, visando consolidar projetos de longo prazo que transcendam ciclos governamentais.

Maior urgência estratégica

Na área nuclear, o histórico de colaboração já é evidente, com exemplos que vão do fornecimento de combustível para usinas existentes à participação russa no projeto brasileiro de submarinos nucleares.

A expansão desse modelo pode incluir o uso de reatores modulares e o intercâmbio científico sob a égide de institutos internacionais. No setor aeroespacial, a criação de um grupo de trabalho entre a Roscosmos e a Agência Espacial Brasileira sinaliza uma tentativa de retomar o ritmo de cooperação, com a possibilidade de transferência de conhecimento tecnológico.

O setor de defesa, contudo, é o que apresenta maior urgência estratégica. Em um cenário de crescente preocupação com a soberania sobre a Amazônia e recursos marítimos, o governo brasileiro visa ampliar sua capacidade de dissuasão.

Nesse contexto, o estreitamento de laços com a Rosoboronexport (empresa russa para a exportação e importação de produtos, tecnologias e serviços de defesa) surge como uma alternativa para o desenvolvimento de capacidades militares e de inteligência, complementando as metas de transformação nacional defendidas pela atual gestão.