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Sem saída: 23 brasileiros vítimas de tráfico humano em Madagascar pedem repatriação

Familiares das vítimas já avisaram à Defensoria Pública que não têm recursos para custear a viagem de retorno, mas Itamaraty afirma que isto não garante custeio da repatriação.
Sem saída: 23 brasileiros vítimas de tráfico humano em Madagascar pedem repatriaçãoGettyimages.ru

Vinte e três brasileiros que afirmam ter sido vítimas de tráfico humano em Antananarivo, capital de Madagascar, enviaram pedido formal ao Itamaraty solicitando repatriação e assistência consular, segundo reportou a Folha de S.Paulo na segunda-feira (7).

O grupo alega estar sob "extrema vulnerabilidade e risco iminente à vida" após ter sido mantido em cárcere e forçado a aplicar golpes eletrônicos por uma rede internacional de tráfico de pessoas.

Os brasileiros foram presos em 19 de agosto durante uma operação policial local que mirava o complexoonde estavam em cativeiro e eram forçadas a aplicar golpes.

Após permanecerem entre três e cinco dias sob custódia das autoridades malgaxes, foram liberados, mas tiveram os passaportes retidos.

Segundo informações do g1, a polícia local condicionou a devolução dos documentos à apresentação de passagens de retorno ao Brasil.

Redes internacionais

O caso expõe uma possível mudança nas rotas internacionais de tráfico humano. De acordo com a ONG Exodus Road Brasil, sucursal brasileira de organização internacional contra tráfico humano, as redes criminosas passaram a pulverizar operações para países como Madagascar, Paraguai, Ucrânia e Emirados Árabes Unidos após o aumento da repressão a complexos de golpes no Sudeste Asiático, principalmente no Camboja e na Tailândia, onde houve um conflito fronteiriço em 2025.

As vítimas teriam sido aliciadas com falsas promessas de emprego. Entre elas estão duas moradoras de Uberaba (MG) que acreditavam que iriam trabalhar em um salão de beleza na Tailândia.

Inicialmente levados ao Camboja, os brasileiros foram posteriormente transferidos para Madagascar, onde eram obrigados a cumprir jornadas de 10 a 12 horas diárias aplicando golpes virtuais, incluindo falsa identificação como Polícia Federal e o "golpe do amor", promovido pela dissimulação de relacionamentos afetivos para conseguir dinheiro.

Familiares de 11 integrantes do grupo já declararam oficialmente à Defensoria Pública da União (DPU) que não possuem recursos para pagar a viagem de volta, conforme informou a Exodus Road. A organização argumenta que o Brasil, como signatário do Protocolo de Palermo, tem a obrigação de garantir proteção e retorno seguro às vítimas de tráfico internacional.

Prestação consular

O Itamaraty, entretanto, esclareceu que a comprovação de insuficiência financeira é "necessária, porém não suficiente" para a repatriação, de acordo com o g1. O custo individual das passagens até São Paulo é estimado em R$ 5,5 mil, valor que as famílias afirmam não poder arcar.

O ministério informa que avalia alternativas como auxílio de familiares, amigos ou empregadores, além de programas oficiais disponíveis no país de origem. A pasta destacou ainda que a repatriação não constitui "direito adquirido", sendo sempre excepcional e condicionada ao cumprimento de diversos critérios.

Em nota divulgada à Folha de S.Paulo, o Itamaraty afirmou prestar assistência consular por meio da Embaixada em Maputo, Moçambique, responsável por Madagascar, e estar finalizando preparativos para uma missão de acompanhamento presencial em Antananarivo.

Atualmente, os brasileiros permanecem abrigados por uma organização malgaxe que fornece alimentação e acomodação. O ministério afirma manter "contato diário" com o grupo e atuar como mediador junto a organizações locais, tendo facilitado a hospedagem através do cônsul honorário e prestado auxílio financeiro.