Ativistas sociais e ambientais argentinos promoveramno sábado (29) uma manifestação em frente à residência do bilionário Peter Thiel, cofundador do PayPal e da Palantir Technologies, em um bairro nobre de Buenos Aires, segundo informações da imprensa internacional.
O protesto visou expressar rejeição ao Regime de Incentivos para Grandes Investimentos (Super RIGI) proposto pelo presidente Javier Milei e aprovado em junho, além de clamar pela defesa da soberania nacional sobre recursos naturais e exigir a saída do empresário do país.
- O Super RIGI é um regime de benefícios fiscais e de estabilidade aduaneira e cambial por 30 anos, visando atração de investimentos em setores estratégicos.
- Críticos da oposição argumentam que ele representa uma "rendição da República Argentina" a interesses estrangeiros, enquanto governistas sustentam que os incentivos impulsionam o desenvolvimento tecnológico do país.
Os manifestantes se reuniram sob o slogan "Peter Thiel, vá para casa" e acusaram o empresário de interferir ativamente na política e economia locais.
Os protestos responsabilizaram suas operações corporativas por danos ambientais e à saúde graves, exigindo a interrupção imediata das atividades de suas empresas no país sul-americano.
"Magnatas da tecnologia dessa espécie não são bem-vindos neste território", disse o manifestante Andy, citado pela mídia Viory, argumentando que as tecnologias desenvolvidas por Thiel visam controlar a cidadania.
Alguns manifestantes se fantasiaram de Gandalf, personagem de "O Senhor dos Anéis", em referência à afinidade de Thiel com a saga de JRR Tolkien. Vestidos com capas cinzas e chapéus pontudos, carregaram uma faixa com os dizeres "Você não passará".
A terra prometida ao capital
A manifestação sucedeu uma audiência parlamentar de cinco horas realizada em 26 de agosto no Congresso argentino, que alvejou as atividades do magnata germano-americano.
Parlamentares de oposição investigaram os interesses de Thiel no país, aumentando o escrutínio após a compra uma mansão em Buenos Aires e aquisição de 1% em participação na Vista Energy, maior exportadora de petróleo do país.
Expositores analisaram desde os vínculos do bilionário com o governo Milei e projetos como a "cidade privada" Próspera em Honduras, até tentativas anteriores da Palantir de administrar a digitalização dos arquivos secretos do caso do atentado à Associação Mutual Israelita Argentina (AMIA) de 1994, em 2017.
O governo confirmou, em abril, um encontro entre Thiel e o presidente Javier Milei na Casa Rosada, no mesmo mês em que o bilionário estabeleceu residência temporária no país, matriculando seus filhos em uma escola local.
A revista analítica New Lines contextualiza que a chegada de Thiel à Argentina não representa paranoia ou fuga de impostos, mas uma operação logística coordenada por uma rede de intermediários e think tanks pertencentes à direita transnacional.
Segundo o cientista social argentino Pablo Alabarces, o país ofereceria condições materiais excepcionais: energia barata da formação de Vaca Muerta na Patagônia, reservas estratégicas de lítio e minerais raros, além da disposição do governo Milei em desmantelar controles e regulações.
"Todos os bilionários do mundo que querem fugir de países cada vez mais regulamentados, com impostos mais altos e governos que perseguem seus cidadãos, são bem-vindos na República Argentina", declarou o chefe de gabinete de Milei, Manuel Adorni, em abril.
Por sua vez, os contratos da Palantir com o Departamento de Guerra dos EUA exemplificam a construção de uma infraestrutura de vigilância tecno-autoritária que, como apontam manifestantes, se alimentam dos dados pessoais de cidadãos comuns.
- A Palantir mantém contratos com CIA, FBI e a Segurança Nacional dos EUA, e sua tecnologia foi apontada como usada em operações militares controversas, incluindo um ataque a uma escola primária no Irã que matou 168 pessoas, a maioria meninas.
O jornal americano Bloomberg revelou na sexta-feira (28) que Thiel cancelou sem explicação sua participação em uma conferência empresarial programada para a semana seguinte.