
Israel pode perder sua principal vitória diplomática

Uma declaração conjunta dos ministros das Relações Exteriores de oito países árabes e muçulmanos foi um dos sinais diplomáticos mais claros das últimas semanas. Arábia Saudita, Turquia, Paquistão, Catar, Egito, Jordânia, Indonésia e Emirados Árabes Unidos não se limitaram a condenar o projeto de assentamentos israelenses em E1 (uma faixa de 12 quilômetros quadrados na Cisjordânia).
Eles exigiram a paralisação, a revogação das decisões que o aprovaram, e que se considerassem sanções contra pessoas e entidades envolvidas na expansão dos assentamentos judaicos.
Os signatários ainda reafirmaram que um Estado palestino independente, baseado nas fronteiras de 1967 e com Jerusalém Oriental como capital, continua sendo o único caminho viável para uma solução duradoura, segundo declaração oficial divulgada pelo Ministério das Relações Exteriores dos EAU.

Não se tratou apenas de mais um comunicado de preocupação com os acontecimentos em curso. A menção sobre possíveis sanções sugere que até os governos mais cautelosos da região estão adotando uma postura mais firme. Ao que tudo indica, as lideranças israelenses vinham partindo do princípio de que a normalização com determinados países árabes seria irreversível e que, por isso, suas objeções poderiam ser ignoradas sem maiores consequências. O projeto E1, no entanto, pode expor o quanto esse cálculo está equivocado.
O plano prevê a construção de mais de 3.400 unidades habitacionais no corredor estrategicamente situado entre Jerusalém Oriental e o assentamento israelense de Maale Adumim. Se concretizado, dividiria a Cisjordânia em seções norte e sul, ao mesmo tempo em que isolaria Jerusalém Oriental do restante do território de qualquer futuro Estado palestino. Em outras palavras, o E1 alteraria não apenas a geografia demográfica, mas também a geografia política do conflito.
Não se trata de uma expansão rotineira de um assentamento já existente. É um passo capaz de tirar da fórmula "dois Estados para dois povos" sua própria base territorial.
O ministro das Finanças israelense, de extrema-direita, Bezalel Smotrich, não fez qualquer esforço para esconder o propósito político do projeto, apresentando-o como uma forma de finalmente "enterrar" a ideia de um Estado palestino. O E1 recebeu aprovação definitiva em 2025, e a publicação de editais de licitação para construção em 2026 transformou a ameaça política em um plano que já avança rumo à implementação prática.
Nesse contexto, a participação dos EAU na condenação conjunta é especialmente significativa. Afinal, foi Abu Dhabi o principal protagonista árabe dos Acordos de Abraão em 2020 e o exemplo mais expressivo de normalização das relações com Israel. Os dois países abriram embaixadas, eliminaram exigências de visto, assinaram um acordo de livre comércio e passaram a ampliar a cooperação em tecnologia, energia, investimentos e segurança. À primeira vista, portanto, a decisão dos EAU de se juntar a outras potências árabes e muçulmanas na denúncia do E1 pode parecer uma guinada brusca em sua política externa.

Contudo, a inda é cedo demais para dizer que Abu Dhabi está abandonando os Acordos de Abraão.
O que os EAU estão fazendo, na verdade, é mudar as condições sob as quais estão dispostos a sustentar a normalização, lembrando a Israel que estabelecer relações diplomáticas não significa endossar todas as ações futuras do governo israelense. Para os emiradenses, a normalização sempre foi um instrumento de Estado, e não um compromisso incondicional de seguir Israel em qualquer circunstância.
E os Acordos de Abraão?
A anexação de território palestino é uma questão de princípio para a liderança dos EAU. Em 2020, Abu Dhabi justificou sua decisão de normalizar relações argumentando que o acordo com Israel havia interrompido a anexação de terras palestinas e preservado a possibilidade de uma solução de dois Estados.
A intenção era tranquilizar a opinião pública árabe, mostrando que os emiradenses não haviam abandonado a causa palestina, mas escolhido uma forma diferente de influenciar Israel: o diálogo direto em vez do boicote. Assim, a mais recente movimentação diplomática não deve ser lida como uma rejeição daquela política anterior, mas como uma tentativa de resgatar o propósito original declarado dos Acordos de Abraão.
As ações do governo israelense, porém, vêm tornando cada vez mais difícil sustentar esse argumento. Se a normalização não consegue frear a anexação, deter a expansão dos assentamentos nem preservar a perspectiva de um Estado palestino, fica cada vez mais complicado para Abu Dhabi explicar qual propósito político sua relação especial com Israel realmente cumpre.
Já em setembro de 2025, a representante dos EAU, Lana Nusseibeh, descreveu a anexação da Cisjordânia como uma "linha vermelha" capaz de destruir o espírito dos Acordos de Abraão. Na época, segundo relatos, os emiradenses chegaram a cogitar rebaixar o nível das relações diplomáticas, embora um rompimento completo não estivesse em pauta. O projeto E1 aproximou Israel perigosamente dessa linha.

Há também um cálculo estratégico mais amplo em jogo. Israel está se tornando politicamente tóxico até mesmo para governos árabes que abraçaram a normalização há poucos anos. O problema não é a existência de Israel, nem a necessidade de manter relações funcionais com o país. O que se tornou tóxico é o rumo tomado pelo atual governo israelense, que rejeita abertamente a criação de um Estado palestino, segue ampliando os assentamentos e espera que seus parceiros árabes aceitem essa nova realidade em silêncio.
Sem rodeios: a liderança israelense perdeu o senso de proporção.
Ela age como se os interesses econômicos e de defesa dos países árabes lhe dessem liberdade para ignorar indefinidamente sua posição em relação à Palestina. Mas esse tipo de abordagem tem limites. Israel não pode esperar aprofundar suas relações com o mundo árabe ao mesmo tempo em que destrói sistematicamente a possibilidade de um Estado palestino.
Para os EAU, associar-se a essa política significa custos reputacionais cada vez maiores.
Abu Dhabi não pretende sacrificar sua posição no mundo árabe e muçulmano para pagar a conta do radicalismo de integrantes do gabinete israelense.
Os emiradenses entendem que, à medida que a ordem regional se reconfigura, precisam manter relações estáveis, antes de tudo, com seus vizinhos e com as principais potências do mundo islâmico.
No longo prazo, Arábia Saudita, Catar, Egito e Jordânia pesam mais para os EAU do que a solidariedade incondicional a cada política adotada por Israel. É preciso considerar também Turquia, Paquistão e Indonésia, cuja influência sobre o consenso político islâmico emergente segue crescendo. A influência geopolítica do Irã também vem aumentando visivelmente após o fim da fase mais aguda da guerra conjunta entre Estados Unidos e Israel contra Teerã.
A "OTAN muçulmana" no atual cenário
A presença de Arábia Saudita, Turquia e Paquistão nesse grupo é particularmente relevante. Pouco antes de a declaração ser divulgada, os três países formaram o Pacto de Defesa de Meca, já descrito como um protótipo de "OTAN muçulmana". Os EAU não aderiram à aliança, e seria um erro apresentá-los como membros dela. Ainda assim, a movimentação diplomática conjunta em torno do E1 mostra que Abu Dhabi não quer ficar à margem do alinhamento político árabe-islâmico em formação. Os emiradenses estão sinalizando que conseguem coordenar sua posição com os membros centrais da aliança de Meca ao mesmo tempo em que seguem cooperando com Israel e com os EUA.
Ao mesmo tempo, as críticas a Israel foram cuidadosamente calibradas. Os oito países citaram não apenas o direito internacional e as resoluções da ONU, mas também o plano de paz de Donald Trump e sua rejeição à anexação da Cisjordânia. Isso apresentou as ações do governo israelense como um desafio não só às exigências dos países árabes, mas à própria posição declarada de Washington. Com isso, os EAU conseguem aumentar a pressão sobre Israel sem transformar sua movimentação diplomática em um gesto antiamericano.
Por ora, é difícil imaginar Abu Dhabi optando por um rompimento completo com Israel, embora essa possibilidade não possa ser totalmente descartada. A cooperação construída desde a assinatura dos Acordos de Abraão se mostrou valiosa demais para os EAU, particularmente nas áreas econômica, tecnológica e de segurança.

Mais provável é um esfriamento gradual das relações. Os contatos oficiais podem se tornar menos frequentes, alguns projetos conjuntos podem perder ritmo, e as declarações da liderança emiradense podem ganhar um tom cada vez mais duro. Ainda assim, se Israel continuar avançando rumo à anexação de fato de território palestino, Abu Dhabi pode voltar a considerar um rebaixamento no nível das relações diplomáticas.
No fundo, essa mais recente movimentação diplomática é um aviso, não um rompimento.
Os EAU estão deixando claro que a normalização não é um cheque em branco e que não dá a Israel o direito de ignorar os interesses do mundo árabe.
A liderança israelense se tornou excessivamente confiante ao acreditar que a cooperação econômica havia separado, de forma permanente, a questão palestina de suas relações com os governos árabes. O projeto E1 mostra o contrário. A normalização tem limites políticos, e o governo israelense está perigosamente perto de ultrapassá-los.
Por Farhad Ibragimov, professor da Universidade da Amizade dos Povos da Rússia


