
Nasce um novo eixo militar no mundo islâmico

Arábia Saudita, Paquistão e Turquia assinaram nesta sexta-feira (7), em Meca, um acordo trilateral de defesa em um momento marcado pela crescente instabilidade que abala o Oriente Médio há meses.
O fato de rubricar o pacto na cidade mais sagrada do islã e batizá-lo com seu nome (Acordo Conjunto de Defesa de Meca) confere uma forte carga simbólica a um acordo que, embora se apoie em décadas de cooperação militar, representa uma importante guinada na arquitetura de segurança regional.
O que prevê o acordo?
Segundo a declaração conjunta, o pacto busca reforçar a dissuasão coletiva diante de qualquer agressão e estabelece que um ataque armado contra qualquer um dos três países será considerado um ataque contra todos.
As negociações começaram no ano passado e culminam na criação do novo marco trilateral de cooperação estratégica.
Meios de comunicação turcos apontam que o acordo também facilitará a realização de exercícios militares conjuntos, programas de treinamento, transferências de tecnologia militar e troca de inteligência.
ATACA A UNO DE NOSOTROS, ENFRENTARÁS A LOS TRES
— RT Última Hora (@RTultimahora) August 7, 2026
Arabia Saudita, Turquía y Pakistán sellan un histórico pacto de defensa trilateral. pic.twitter.com/5HvZLrEn2u
Fontes citadas pelo Financial Times garantem que o texto guarda semelhanças com o acordo de defesa mútua assinado no ano passado entre Arábia Saudita e Paquistão. Em abril, Islamabad enviou um esquadrão de caças, pessoal militar e um sistema chinês de defesa antiaérea HQ-9 ao território saudita para reforçar a proteção do reino contra possíveis ataques iranianos.
Aproximando antigos rivais
O acordo une três dos principais países de maioria muçulmana, cada um com capacidades estratégicas distintas. A Arábia Saudita é a única economia árabe membro do G20 e guardiã de Meca e Medina, as duas cidades mais sagradas do islã. O Paquistão é o único Estado muçulmano que possui armas nucleares, enquanto a Turquia conta com o segundo maior Exército da OTAN e desenvolve uma potente indústria de defesa.

Embora o Paquistão mantenha há décadas relações estreitas tanto com Riad quanto com Ancara, os vínculos entre Arábia Saudita e Turquia nem sempre foram fluidos.
Durante a Primavera Árabe, o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, apoiou os movimentos de protesto que Riad considerava uma ameaça às monarquias da região. Anos depois, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos apoiaram conjuntamente forças que enfrentavam a Turquia na Líbia e respaldaram o presidente egípcio Abdel Fattah al-Sisi, duramente criticado na época por Erdogan.
Uma mensagem para a região
A assinatura do acordo coincide com a deterioração da situação de segurança no Mar Vermelho. A Arábia Saudita enfrenta uma pressão crescente por parte dos huthis do Iêmen, que reativaram o conflito com o reino e anunciaram um bloqueio marítimo após acusar Riad de participar do ataque contra o aeroporto de Sanaa.
"Se esse marco se institucionalizar e se traduzir em uma cooperação concreta, poderá reforçar o peso diplomático e militar dos três países e contribuir para o surgimento de uma arquitetura de segurança mais impulsionada pela própria região", afirmou Abdulaziz Sager, presidente do Centro de Pesquisa do Golfo (Arábia Saudita).
Um dos interlocutores consultados pelo Financial Times considera que o pacto pode antecipar uma maior participação militar saudita contra os huthis. "A Turquia dispõe de importantes capacidades navais e é provável que participe, assim como o Paquistão", assinalou.
No final de julho, Riad anunciou ainda a criação de uma aliança marítima multinacional destinada a proteger a liberdade de navegação no estreito de Bab-el-Mandeb, no Mar Vermelho e no golfo de Áden, iniciativa da qual participam tanto Turquia quanto Paquistão.
Fontes paquistanesas explicaram ao Financial Times que, durante uma reunião realizada no mês passado em Ancara, o chefe do Exército do Paquistão, Asim Munir, e o presidente Erdogan discutiram a criação de uma "nova arquitetura regional de segurança", além de uma resposta coordenada aos ataques huthis contra a Arábia Saudita e o tráfego marítimo no Mar Vermelho.
Mansoor Ahmed, pesquisador do Centro de Estudos Estratégicos e de Defesa da Universidade Nacional da Austrália, considera que Paquistão e Turquia trazem uma sólida base industrial em matéria de defesa, enquanto a Arábia Saudita pode desempenhar um papel-chave como financiadora do desenvolvimento tecnológico.
No entanto, o especialista ressaltou que o acordo dificilmente incluirá uma dimensão nuclear, já que a estratégia de dissuasão atômica paquistanesa continua centrada principalmente na rivalidade com a Índia.

