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Cortes, desvios e bodes expiatórios estrangeiros: Por que a saúde na Argentina está em crise?

Cortes atingiram medicamentos, programas contra o câncer e sistemas provinciais; Uma denúncia sobre o Instituto Nacional de Serviços Sociais para Aposentados e Pensionados colocou um deputado governista no centro de uma investigação.
Cortes, desvios e bodes expiatórios estrangeiros: Por que a saúde na Argentina está em crise?Imagem gerada por inteligência artificial.

Em 2026, a saúde pública na Argentina passou por uma sequência de cortes orçamentários e mudanças administrativas.

O aprofundamento do chamado ajuste fiscal, promovido pelo governo Milei, incluiu um corte histórico de mais de 63 bilhões de pesos (cerca de R$ 219 milhões) no orçamento de programas essenciais de saúde em maio. Três meses depois, o governo regulamentou a cobrança por atendimentos médicos de estrangeiros sem residência permanente no país.

O corte ocorreu pouco depois da reforma administrativa de 26 de março de 2026 no Ministério da Saúde, por meio do Decreto 193/2026, que eliminou diversas unidades organizacionais. O jornal Clarín classificou a medida como uma "reestruturação altamente controversa".

Em paralelo aos recortes orçamentários e às reformas, veio a público uma denúncia de suposto desvio de recursos envolvendo o deputado nacional Manuel Quintar, do partido governista La Libertad Avanza, que também preside a Comissão de Ação Social e Saúde Pública da Câmara.

"Motoserra" de Milei em saúde pública

Em 20 de maio de 2026, mais de 60 mil argentinos participaram da "Marcha Federal pela Saúde", em protesto contra as medidas de austeridade de Milei. "A saúde não pode esperar" foi o lema de milhares de profissionais de saúde, representantes de organizações sociais, sindicatos e pacientes que se juntaram para exigir o fim dos cortes e reformas.

Naquele mês, os cortes atingiram diferentes frentes da saúde pública argentina. Do total reduzido, 20 bilhões de pesos foram retirados dos recursos destinados ao acesso a medicamentos e tecnologia médica, enquanto outros 25 bilhões foram cortados do fortalecimento dos sistemas provinciais de saúde.

Também houve redução de 5 bilhões de pesos no programa de luta contra o câncer, afetando diretamente os auxílios sociais para pacientes oncológicos.

Os cortes se somaram à redução do orçamento do Instituto Nacional do Câncer para 2025, reduzido em 61% em comparação com 2023, segundo dados da Central de Trabalhadores da Argentina Autônoma. A entidade também apontou falta de financiamento em tratamentos para HIV, tuberculose e hepatite C.

Cobrança a estrangeiros sem residência permanente

Três meses após os recortes no orçamento, o governo argentino regulamentou a cobrança por atendimentos médicos de estrangeiros sem residência permanente na Argentina. A nova regra não se aplica a casos de emergência.

A medida, estabelecida pela Resolução nº 1.066/2026 do Ministério da Saúde, determina que não residentes apresentem seguro de saúde ou paguem antecipadamente por procedimentos que não sejam considerados emergenciais.

"Acabou a saúde gratuita para estrangeiros", afirmou o porta-voz da Presidência local, Adrián Ravier, ao comemorar a medida em suas redes sociais. 

A medida recebeu críticas do ministro da Saúde da província de Buenos Aires, Nicolás Kreplak, que classificou a ideia como "racista". Segundo Kreplak, os estrangeiros não residentes representam apenas 0,2% das consultas e 0,8% das internações nos hospitais públicos. O ministro enfatizou que é a falta de recursos que está sobrecarregando o sistema de saúde, e não os pacientes estrangeiros.

Cortes em público e desvio em privado

No mesmo período, uma denúncia passou a envolver o deputado nacional Manuel Quintar, aliado de Javier Milei e empresário ligado a clínicas privadas.

A denúncia, apresentada pelo comunicador Facundo Pérez Ernst e repercutida pela imprensa argentina, aponta uma rede de autoridades e empresas envolvendo o deputado, sua esposa e uma prima.

Segundo a denúncia, o esquema teria como objetivo obter contratos irregulares e redirecionar benefícios e pacientes do PAMI (Instituto Nacional de Serviços Sociais para Aposentados e Pensionados) para clínicas administradas pela família Quintar.

Segundo a imprensa argentina, Pérez Ernst afirmou que as clínicas recebiam "aprovações quase instantâneas" para se credenciar como prestadoras do PAMI. Uma ampliação da denúncia, apresentada em abril de 2026, apontou faturações mensais entre 25 e 27 milhões de pesos em favor das clínicas vinculadas ao deputado.

O caso chamou a atenção do público após um outro episódio envolvendo Quintar, que chegou ao Congresso com uma Tesla Cybertruck avaliada em mais de 300 milhões de pesos (aproximadamente R$ 1,05 milhão). 

A repercussão do caso também ganhou força pelo fato de Quintar representar Jujuy, uma das províncias mais pobres do país, enquanto a exposição de bens de alto valor passou a ser contrastada com o discurso de austeridade e de enfrentamento às elites defendido pelo governo Milei.