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Rússia e Ucrânia: de partes do mesmo Estado à Revolução Laranja (parte 1)

As relações entre a Rússia e a Ucrânia foram marcadas desde o começo por conflitos em várias esferas da vida política e econômica, e uma relação pendular oscilando entre antagonismo e interdependência.
Rússia e Ucrânia: de partes do mesmo Estado à Revolução Laranja (parte 1)Sputnik / Sergey Guneev
  • A RT preparou uma série de artigos que descrevem as relações entre a Rússia e a Ucrânia e explicam as causas da crise ucraniana. Trata-se de um material dividido em cinco partes: 

Rússia e Ucrânia: de partes do mesmo Estado à Revolução Laranja (parte 1)

Euromaidan e Crimeia: como o golpe de Estado levou à reunificação da península com a Rússia (parte 2)

Os Acordos de Minsk: diplomacia fadada ao fracasso (parte 3)

Trégua que virou trincheira: sete anos de teatro diplomático entre Ucrânia e Rússia (parte 4)

O ápice da crise ucraniana: o que levou à operação militar especial? (parte 5)

Desde a queda da União Soviética em 1991, as relações entre a Rússia e a Ucrânia foram um ponto de debates aquecidos na vida política dos países. Se por um lado compartilhavam uma herança histórica que começou séculos atras (Kiev, por exemplo, era a capital do Estado russo em 882 AC), por outro a Ucrânia pretendia construir uma nova identidade nacional, se aproximar da Europa Ocidental, o que às vezes colocava o país em rota de colisão com a Rússia.

Esse confronto se manifestava em várias esferas da vida política do país, da defesa ao fornecimento de gás. Apesar das discordâncias, os países não podiam permitir que as relações se deteriorassem demais, por serem interdependentes em grande escala

Depois da queda da União Soviética 

Em 1991, a União Soviética colapsou. No referendo de 1 de dezembro de 1991, mais de 90% dos eleitores que compareceram às urnas votaram pela independência da Ucrânia.

As relações da Rússia com o Estado recém-criado foram complicadas desde o começo. Os países tiveram dificuldades tanto em assinar documentos de cooperação política ou econômica, quanto em dividir a frota marítima estacionada na Crimeia e as armas nucleares soviéticas em seu território.

Depois da dissolução da União Soviética, a Rússia tornou-se seu sucessor legal do estado, e inclusive herdou todo o arsenal, se tornando uma das cinco potências nucleares.

Na época da URSS, o arsenal era armazenado no território de Belarus, Cazaquistão e Ucrânia. Belarus e Cazaquistão concordaram rapidamente em transferir sua parte para a Rússia, enquanto a Ucrânia se opôs em princípio. A crise foi superada somente em 1994, com participação dos mediadores europeus.

Além disso, havia outros pontos de discordância: como duas crises no fornecimento de gás (a Ucrânia ainda esperava descontos no pagamento pelo gás russo como um país aliado enquanto conduzia uma política pró-europeia), o conflito da ilha de Tuzla, proxima à Criméia (a construção de um dique no cabo da ilha pela Rússia provocou forte reação da Ucrânia), dentre outros.

Em cima do muro

Na Ucrânia, tradicionalmente, haviam dois campos de força política: pró-Rússia e pró-Ocidente. Previsivelmente, a parte ocidental do país (segundo o censo demográfico de 2001, 15-17% da população do Estado), se vê mais ligada aos países europeus, e tem posições mais radicais e nacionalistas na política. Já a região central e oriental do país (constituindo a maioria da população) tinha laços mais estreitos com a Rússia, e votavam em partidos e candidatos que defendiam o alinhamento com o vizinho eslavo.

Portanto, nos anos 1990 e 2000, o país tentava sentar em duas cadeiras ao mesmo tempo, cooperando tanto com a Rússia e países ex-integrantes da União Soviética — para receber descontos no fornecimento de energia e condições facilitadas para exportações de produtos — quanto com a Europa, facilitando o caminho para uma futura integração na União Europeia.

Revolução Laranja: 'Primeiro Maidan'

Nas eleições de 2004, dois candidatos lideravam a corrida: o candidato pró-Rússia Viktor Yanukovich acabou vencendo o nacionalista Viktor Yushchenko. No mesmo dia de votação para o segundo turno, as autoridades declararam a vitória de Yanukovich com o resultado preliminar de mais de 50% dos votos.

Sem receber os dados da contagem final, Yushchenko chamou seus apoiadores a protestaram para "defender a vitória". Já em 22 de novembro, 100 mil pessoas saíram nas ruas. Em 24 de novembro, foram publicados os resultados finais: o candidato pró-russo recebeu 49,46% dos votos, enquanto o pró-ocidente 46,61%.

Os políticos europeus e norte-americanos apoiaram Yushchenko e recusaram-se a reconhecer Yanukovich como presidente, ameaçando a Ucrânia com sanções econômicas devido à suposta fraude nas eleições. Yushchenko se proclamou unilateralmente o presidente eleito do país, declarou greve por tempo indeterminado e recusou aceitar qualquer condição senão reorganizar o segundo turno.

Em 26 de dezembro o segundo turno foi repetido, agora numa paisagem política muito diferente, e desta vez Yushchenko venceu com 51,99% dos votos contra 44,19% para Yanukovich. No mandato dele, em 2007, a Ucrânia começou a preparação para assinar o Acordo da Associação com a UE, o que tornou-se a base para Euromaidan.

Porém, o caminho pró-europeu não trouxe prosperidade. O governo de Yushchenko foi fortemente impopular, o país não progrediu em direção ao acesso à União Europeia, e nas eleições de 2010, Yushchenko recebeu apenas 5,45% dos votos, enquanto Yanukovich venceu com 48,95% no segundo turno.

A Cúpula de Bucareste da OTAN 

Em abril de 2008, na Cúpula da OTAN em Bucareste, a aliança declarou que a Ucrânia e a Geórgia "se tornariam membros" da OTAN no futuro, embora sem conceder o Plano de Ação para a Adesão (MAP) naquele momento.

Esse foi um passo decisivo do Ocidente em direção à incorporação da Ucrânia na esfera de segurança ocidental, uma ameaça direta à segurança da Rússia.

Os "Acordos de Kharkov" (2010) 

Logo depois de assumir a presidência, Yanukovich assinou em abril de 2010 os chamados "Acordos de Kharkov" com a Rússia, prorrogando o arrendamento da base da Frota do Mar Negro em Sevastopol até 2042 (originalmente previsto até 2017), em troca de um desconto no preço do gás russo.

A frota do Mar Negro existe desde o ano 1783, quando a Crimeia passou a fazer parte da Rússia. Com o advento da URSS, a península se tornou parte da República Russa, apenas em 1954 sendo transferida à Ucrânia. Após a queda da União Soviética, passaram se anos até a divisão da frota ser acordada, e o acordo foi atingido só em 1997

Yanukovich preservava a dinâmica que regia o país desde a sua criaçao, buscando compensações econômicas concretas da Rússia, sem abandonar formalmente a agenda de aproximação com a União Europeia.

A alternativa da União Aduaneira

Paralelamente às negociações com a UE, a Rússia promovia desde 2010 a integração da Ucrânia na União Aduaneira (Rússia, Belarus e Cazaquistão), que viria a se tornar a União Econômica Euroasiática no futuro e também contaria com o ingresso do Quirguistão. A União oferecia acesso a energia barata e o livre trânsito de pessoas e mercadoria de forma similar a como a União Européia opera entre os países membros.

Em agosto de 2013, com as negociações do Acordo de Associação já em fase avançada, a Rússia endureceu os controles alfandegários removendo privilégios dos quais a Ucrânia se beneficiava apesar de não ser formalmente membro do bloco recém-criado. Essa ação levou o governo ucraniano a suspender, em 21 de novembro de 2013, a preparação para a assinatura do Acordo de Associação — decisão que desencadeou os eventos do Euromaidan.