Estados Unidos e Arábia Saudita assinaram um acordo de cooperação para o uso pacífico da energia nuclear, criando uma base legal que permitirá a participação de empresas americanas no desenvolvimento do programa nuclear saudita.
O documento, conhecido como Acordo da Seção 123, foi assinado pelo secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, e pelo ministro da Energia da Arábia Saudita, príncipe Abdulaziz bin Salman.
As duas partes também firmaram um acordo complementar de salvaguardas, que estabelece mecanismos para garantir que tecnologias e materiais transferidos sejam utilizados exclusivamente para fins civis.
Apesar da assinatura, o acordo ainda precisa passar por uma análise do Congresso americano antes de entrar plenamente em vigor. De acordo com a legislação dos Estados Unidos, esses acordos ficam sujeitos a um período de revisão de cerca de 90 dias, durante o qual os parlamentares podem apresentar objeções ou tentar bloqueá-los.
As negociações sobre os principais pontos do pacto foram concluídas no ano passado. Em novembro de 2025, o Departamento de Energia dos EUA anunciou a assinatura de uma declaração conjunta que confirmou o encerramento das tratativas sobre a cooperação nuclear civil entre os dois países.
O Acordo da Seção 123 não concede automaticamente à Arábia Saudita acesso a materiais nucleares, tecnologia de enriquecimento de urânio ou instalações sensíveis.
Ele apenas estabelece o marco jurídico necessário para que empresas americanas possam fornecer equipamentos, componentes e serviços nucleares. Cada projeto específico ainda dependerá de licenças e autorizações das autoridades reguladoras dos EUA.
Risco nuclear
Um dos principais pontos de atenção é que o acordo, segundo a imprensa americana, não obriga explicitamente Arábia Saudita a abandonar atividades de enriquecimento de urânio ou reprocessamento de combustível nuclear usado.
O documento abre caminho para uma possível cooperação nessas áreas, mas qualquer avanço dependerá de estudos técnicos, avaliações independentes e futuras decisões entre os governos.
A questão diferencia o pacto saudita do chamado "padrão ouro" adotado pelos Estados Unidos no acordo nuclear com os Emirados Árabes Unidos em 2009, quando Abu Dhabi renunciou voluntariamente ao enriquecimento de urânio em território nacional e ao reprocessamento de combustível nuclear.
A decisão da Arábia Saudita de não aceitar as mesmas restrições representa uma mudança importante na política americana de não proliferação nuclear
Um dos pontos de preocupação no acordo entre Estados Unidos e Arábia Saudita é a ausência de uma exigência para que Riad adira ao Protocolo Adicional da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), que amplia a capacidade de fiscalização sobre atividades nucleares declaradas e não declaradas.
Dupla finalidade
A questão ganhou destaque após declarações do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, que afirmou em 2018 que a Arábia Saudita não buscava uma bomba nuclear, mas que desenvolveria armas atômicas rapidamente caso o Irã fizesse o mesmo.
Apesar das preocupações, especialistas apontam que o programa nuclear saudita também possui finalidades civis, como aumentar a geração de energia, investir em dessalinização de água e reduzir o consumo interno de petróleo, dentro da estratégia de diversificação econômica da Visão Saudita 2030.
Para os EUA, o acordo também envolve interesses econômicos e estratégicos. A cooperação permite que empresas americanas disputem contratos bilionários no setor nuclear saudita e evita que Riad se aproxime de fornecedores como Rússia e China.
Um eventual desenvolvimento de armas nucleares pela Arábia Saudita poderia provocar uma corrida armamentista no Oriente Médio, levando outros países da região a buscar capacidades semelhantes e aumentando a instabilidade regional.
Escalada regional
O cenário mais provável não é que a Arábia Saudita desenvolva uma bomba nuclear em curto prazo, mas sim que avance gradualmente em um programa nuclear civil com capacidade tecnológica mais ampla, incluindo etapas do ciclo de combustível nuclear.
Esse caminho permitiria a Riad ampliar sua infraestrutura e conhecimento técnico sem violar formalmente o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), mas também manteria uma opção estratégica para o futuro caso a situação regional se deteriore.
O principal ponto de preocupação é que o acordo com os Estados Unidos não exige uma renúncia total ao enriquecimento de urânio nem a adesão obrigatória ao Protocolo Adicional da AIEA, reduzindo a distância entre um programa civil avançado e uma possível capacidade militar.
A questão central para a comunidade internacional será como garantir fiscalização e transparência nos próximos anos. O caso saudita lembra o debate envolvendo o Irã, cujo programa nuclear civil também gerou preocupações sobre a possibilidade de uso militar.
Embora não haja indicação de que Riad tenha decidido construir armas nucleares, o desenvolvimento de tecnologias sensíveis pode alterar o equilíbrio de poder no Oriente Médio e gerar novas tensões na região.