Em artigo no Washington Post, Lula diz que tarifas dos EUA são erro estratégico

O presidente afirmou que medidas afetam o comércio, elevam custos e comprometem a relação entre Brasil e Estados Unidos.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva publicou neste domingo (26), no jornal Washington Post, um artigo no qual critica as tarifas impostas pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros e defende a retomada do diálogo entre os dois países.

Sob o título "As tarifas dos EUA contra o Brasil são um erro estratégico", Lula afirmou que as medidas adotadas pelo governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, prejudicam o comércio bilateral, aumentam os custos para consumidores e afetam a parceria entre Brasília e Washington.

No artigo, Lula recordou que, há um ano, Trump anunciou uma tarifa de 50% sobre produtos do Brasil. Segundo o presidente brasileiro, a referência ao ex-presidente Jair Bolsonaro na carta que comunicava a decisão mostrou que a medida tinha motivação política.

Bolsonaro foi condenado em 2025 e está preso por tentativa de golpe de Estado, conforme registrou Lula. O presidente também afirmou que, nas conversas mantidas com Trump desde então, defendeu uma relação baseada em benefícios para os dois países, apesar das diferenças entre os governos.

Novas tarifas e efeitos no comércio

Lula relatou que negociações entre os governos e decisões da Suprema Corte dos Estados Unidos alteraram a primeira versão das tarifas. Neste mês, porém, Washington decidiu aplicar novas alíquotas contra produtos brasileiros, que variam de 12,5% a 37,5%.

Segundo o presidente, a decisão foi tomada apesar das reuniões realizadas entre as equipes dos dois países, dos argumentos apresentados pelo Brasil e dos documentos entregues por ele a Trump.

Lula citou uma estimativa da Global Trade Alert segundo a qual Brasil e Turquia ocupam a segunda posição entre os países mais tarifados pelos Estados Unidos, atrás da China. O presidente acrescentou que os Estados Unidos acumularam superávit de US$ 428 bilhões no comércio de bens e serviços com o Brasil ao longo de 15 anos.

"Além de injustas, as novas tarifas são um erro estratégico: elas prejudicam a economia dos Estados Unidos e a parceria com o Brasil", escreveu. 

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Queda das exportações brasileiras

No artigo, Lula afirmou que setores industriais dos Estados Unidos dependem de insumos fornecidos pelo Brasil. Segundo ele, alimentos, calçados, têxteis, móveis, autopeças e outros produtos poderão chegar ao consumidor dos Estados Unidos com preços maiores.

O presidente informou que as exportações brasileiras para os Estados Unidos caíram para o menor nível desde 1997. Na comparação entre os primeiros seis meses de 2025 e de 2026, o comércio entre os dois países recuou 12,8%.

No mesmo período, segundo os dados apresentados por Lula, o comércio do Brasil com a União Europeia cresceu 6,1%, enquanto as trocas com a China aumentaram 15,9%.

Lula avaliou que, no médio prazo, as tarifas poderão provocar mudanças nas cadeias de produção integradas entre os dois países. De acordo com ele, empresas brasileiras poderão substituir fornecedores dos Estados Unidos por parceiros de outros mercados.

Relação dos EUA com a região

O presidente relacionou as medidas comerciais à política adotada por Washington para o Hemisfério Ocidental. Para Lula, existe uma contradição entre os interesses anunciados pelos Estados Unidos em sua estratégia de segurança e as decisões tomadas em relação à América Latina e ao Caribe.

"A América Latina e o Caribe não precisam de porta-aviões rondando suas águas nem de punições tarifárias. O que nos falta são parceiros confiáveis e previsíveis", pontuou. 

Lula afirmou que, enquanto os Estados Unidos restringem o acesso ao seu mercado, outros países apresentam propostas de comércio, investimento e cooperação. Ele defende iniciativas voltadas ao desenvolvimento, ao comércio e ao combate ao crime organizado.

O presidente também rejeitou a divisão do mundo em zonas de influência e as disputas por recursos. No artigo, ele recorda o histórico de intervenções políticas e militares dos Estados Unidos na América Latina e no Caribe, mas cita momentos em que Washington participou de projetos de cooperação com a região.

Exemplos de cooperação

Entre os exemplos apresentados, Lula mencionou a Política de Boa Vizinhança implementada pelo presidente Franklin D. Roosevelt, que buscou substituir o uso da força pela diplomacia nas relações dos Estados Unidos com os países da região.

Segundo Lula, essa política contribuiu para o início da industrialização no Brasil. Ele também recorda que o presidente George W. Bush incluiu três países da América Latina na primeira reunião de líderes do G20 durante a crise financeira de 2008.

"Para o Brasil, a única guerra que precisamos travar nesta parte do mundo é contra a fome, a pobreza e a desigualdade. E as únicas armas a empregar são as dos investimentos, da transferência de tecnologia e do comércio justo e equilibrado", disse. 

Lula afirmou ainda que tentativas de condicionar a relação entre Brasil e Estados Unidos a posições políticas ou interesses eleitorais não se sustentam. Ele também critica a classificação do Brasil como país não amigo por um secretário de Estado dos Estados Unidos.

Soberania e continuidade do diálogo

Na parte final do artigo, Lula contestou as justificativas apresentadas por Trump para a imposição das tarifas. O presidente aborda a regulação das plataformas digitais, o sistema de pagamentos PIX e as medidas adotadas pelo governo brasileiro na área ambiental.

Segundo Lula, a liberdade de expressão não permite a prática de crimes nas plataformas digitais. Ele também afirmou que o PIX não discrimina empresas dos Estados Unidos e que o sistema constitui uma referência de infraestrutura pública digital.

O presidente acrescentou que, desde 2023, o Brasil intensificou o combate aos crimes ambientais e reduziu o desmatamento nos biomas do país. Lula sustentou que essas ações contradizem as alegações usadas pelo governo dos Estados Unidos para justificar as tarifas.

"Estamos prontos a continuar dialogando de maneira aberta e construtiva, como o relacionamento entre dois países como o Brasil e os Estados Unidos requer. Mas o destino do Brasil compete apenas aos brasileiros, sem interferência externa, nem subserviência, finalizou.