Começa nesta terça-feira (7) em Ancara, capital da Turquia, uma nova cúpula de líderes dos países da OTAN. As relações entre os Estados Unidos e os membros europeus da Aliança atravessam um teste de resistência, em meio à insatisfação de Donald Trump com a contribuição considerada insuficiente dos aliados e com a recusa deles em ajudar no conflito com o Irã.
O presidente norte-americano chegou a cogitar não participar da reunião de líderes por causa de "grande parte das pessoas" presentes. No entanto, no último momento, anunciou que decidiu comparecer em respeito ao presidente turco, Recep Tayyip Erdogan.
Nesse contexto, a Casa Branca informou que Trump espera manter "conversas construtivas e francas com diversos líderes mundiais", enquanto os europeus, ao que tudo indica, desejam que a reunião transcorra da forma mais tranquila possível, sem surpresas.
A fratura transatlântica
Trump chega à nova cúpula insatisfeito com seus aliados europeus, inclusive os mais leais. Nos últimos meses, protagonizou um confronto com o chanceler da Alemanha, Friedrich Merz, que fez uma série de críticas à guerra no Irã. Posteriormente, Washington anunciou a retirada de 5 mil militares norte-americanos da Alemanha.
Em junho, o chefe de Estado também protagonizou uma troca de acusações com a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, ao afirmar que ela era "uma grande admiradora dele", mas que não ajudou os EUA a desbloquear o Estreito de Ormuz. Além disso, assegurou que, durante a cúpula do G7, ela "implorou por uma foto" com ele. Em resposta, Meloni declarou que as declarações de Trump "são completamente inventadas". "Nem a Itália nem eu imploramos", acrescentou.
As críticas à Aliança também não cessaram. Trump classificou os aliados europeus como "covardes" por não atenderem ao seu apelo para enviar meios navais ao Estreito de Ormuz e afirmou que, sem a participação dos Estados Unidos, a OTAN é um "tigre de papel".
Nesse contexto, o The Wall Street Journal, citando fontes, informou que os europeus começaram a acelerar o processo de "desamericanização", removendo discretamente tecnologias americanas de seus sistemas, enquanto o Governo Trump voltou a exigir de seus aliados, às vésperas da cúpula, um maior esforço financeiro dentro do bloco militar.
Na expectativa de uma cúpula sem surpresas
Nesse contexto, a Foreign Policy afirma que os europeus esperam que a próxima cúpula seja previsível e transcorra sem incidentes.
Avaliação semelhante foi feita à RT por Maxim Gabrielian, analista do Instituto de Economia e Estratégia Militar Mundial da Escola Superior de Economia de Moscou. Segundo o especialista, se no ano passado houve uma tentativa de aproximação com o Governo Trump, agora as divergências entre as duas partes são muito maiores por causa do conflito com o Irã.
"O mais provável é que não haja grandes surpresas. Os Estados Unidos continuarão tratando os europeus como peões e representantes descartáveis. Os europeus voltarão a demonstrar uma completa falta de respeito por si mesmos e de dignidade diante dos Estados Unidos e de Trump", afirmou à RT Greg Simons, cientista político sueco e professor da Universidade Internacional Daffodil, em Bangladesh.
Ucrânia, um impasse entre os líderes
Um dos principais pontos de divergência que pode provocar a insatisfação de Trump é a questão do futuro apoio à Ucrânia. Segundo a Bloomberg, os líderes dos países chegaram a um impasse ao tentar elaborar uma declaração conjunta sobre o apoio ao regime de Kiev.
Nesse contexto, o colunista do The Telegraph Owen Matthews afirmou que Vladimir Zelensky não participará da sessão principal da cúpula e tampouco fará, como nos anos anteriores, um "discurso enérgico" diante dos líderes da OTAN. Segundo o jornalista, essa decisão foi tomada "por receio de desagradar Trump".
"É pouco provável que a posição de Trump difira de forma substancial da que já vinha adotando anteriormente. Por isso, realmente me parece que a Europa não alimenta grandes ilusões em relação à próxima cúpula nem à sua agenda", explicou Gabrielian, lembrando que os Estados Unidos reduziram ao mínimo o fornecimento de armas à Ucrânia.
O analista também lembrou que há numerosos líderes na Europa que não desejam estar na "linha de frente" do conflito ucraniano e que Kiev enfrenta dificuldades para se integrar ao espaço europeu em meio a novos atritos com a Polônia e a Hungria.
Apesar disso, Simons considera que os europeus tentarão convencer o presidente americano a voltar a apoiar Kiev. "Uma possível surpresa, ainda que parcial, é a redução do apoio à Ucrânia, como ocorre na Polônia após seu confronto com o regime de Zelensky. Muitas declarações grandiosas e eloquentes serão feitas, mas é pouco provável que sejam acompanhadas de ações concretas e decisivas. Tudo isso não passa de uma fachada e de um exercício para apresentar a OTAN como uma aliança que continua unida, forte e relevante nos assuntos mundiais", concluiu o especialista.