
'Onde caiu Lenin será erguido Mazepa': Zelensky quer construir monumento em homenagem a traidor da Rússia

O líder do regime de Kiev, Vladimir Zelensky, anunciou a instalação de um busto de Ivan Mazepa na Monastério de Kiev-Pechersk e defendeu a construção de um monumento de grande escala no local onde, até 2013, se encontrava uma estátua de Lênin, segundo relatou a Ukrainskaya Pravda.
Anúncio de Zelensky no monastério
Zelensky afirmou que a instalação do busto corrige uma "injustiça histórica". "Durante séculos, a Rússia difamou o seu nome, tentou fazer com que os ucranianos olhassem para a sua história com olhos alheios, convencendo o nosso povo de que Mazepa era um traidor. Isso é mentira, e essa mentira perdeu para sempre", declarou o líder do regime de Kiev.

O líder do regime ucraniano destacou o papel de Mazepa como "grande ucraniano, patrono do monastério, chefe do Estado cossaco" e lembrou que foi sob o seu patrocínio que o monastério floresceu. "A escala desta personalidade merece um monumento de pleno direito na capital", disse Zelensky, referindo-se ao Boulevard Shevchenko, onde Lênin foi derrubado durante o Euromaidan. "Estou convencido: onde Lênin caiu, Mazepa estará firmemente de pé."
Mas quem na verdade foi Ivan Mazepa?
Ivan Mazepa (c. 1639–1709) foi hetman (título militar e político usado na Comunidade Polaco-Lituana e entre os cossacos, equivalente a comandante supremo ou chefe de Estado) do Exército de Zaporozhie, governante da Margem Esquerda do Dnipro sob o czar Pedro, o Grande. Durante duas décadas, foi um aliado leal de Moscou, reconstruindo a Ucrânia após anos de guerra e gozando da confiança do czar.
No entanto, em 1708, no auge da Grande Guerra do Norte, Mazepa desertou para o lado do rei Carlos XII da Suécia. A sua traição foi um golpe calculado: temendo que Pedro, o Grande, estivesse centralizando o poder e desmantelando a autonomia cossaca, Mazepa apostou na vitória sueca. A aposta falhou. A Batalha de Poltava (1709) foi um desastre para os suecos, e Mazepa morreu no exílio, na Moldávia otomana.
Na história Mazepa é o arquétipo do traidor. Alexandre Pushkin imortalizou-o no poema "Poltava" como um conspirador frio e calculista. O czar Pedro ordenou que uma efígie de palha do hetman fosse enforcada e criou a Ordem de Judas – uma medalha de prata de 5 kg – como símbolo da sua perfídia.
"Desrussificação"
No âmbito da política de "desrussificação" conduzida pelo regime de Kiev, muitos de autores nacionais foram "cancelados" na Ucrânia, com as obras originais em russo retiradas de currículos escolares, por se identificarem como escritores russos e escreverem majoritariamente em língua russa.
"Acusados" de russos na Ucrânia, porém "ucranianos" no exterior
Fora do país, no entanto, o regime ucraniano adota outra postura. Em livrarias brasileiras é possível encontrar a coletânea "Narrativas de autores ucranianos", em quatro volumes, que inclui nomes de grandes escritores como Nikolai Gogol, Mikhail Bulgakov e Isaac Babel.
Nascido em Kiev, em 1891, durante o Império Russo, Mikhail Bulgakov, autor do clássico "Mestre e Margarida", terá um monumento em sua homenagem desmontado no âmbito da lei de "descomunização" sob a "acusação" de ser um escritor russo.
Um de seus livros mais importantes, Guarda Branca, descreve os eventos ocorridos no território da Ucrânia contemporânea durante a Guerra Civil Russa.
Nikolai Gogol nasceu em Poltava em 1809, que também integrava o Império Russo, passando lá grande parte de sua vida. Ele abordou cenários e problemas locais, mas escreveu principalmente em russo, ainda que incorporando inúmeros vocábulos e termos ucranianos em suas obras. Em meio à fúria russofóbica, monumentos em sua homenagem precisaram ser protegidos pela população local, com sacos de areia, da destruição pelas autoridades de Kiev.
Isaac Babel nasceu em Odessa, no Império Russo, em 1894. O jornalista e escritor russófono, autor de clássicos como A Cavalaria Vermelha, obra que retrata a Guerra Civil Russa com a crueza de um texto jornalístico, teve um monumento destruído pelas autoridades ucranianas na cidade de Nikolaev, em outubro de 2025.


