
Europa enfrenta situação de 'cada um por si' na disputa por recursos energéticos - Politico

A Europa pode perder a batalha pelo gás contra a Ásia neste verão ao enfrentar dificuldades para se impor em um cenário de concorrência acirrada por recursos energéticos, relata o Politico citando alertas de analistas de mercado e autoridades.
A região enfrenta uma concorrência crescente com economias mais centralizadas, como as da China, do Vietnã ou da Coreia do Sul, que têm maior capacidade de coordenar decisões de compra e negociar com rapidez, enquanto que a União Europeia depende de empresas e prioridades nacionais fragmentadas entre seus 27 Estados-membros.
Embora Bruxelas tenha obtido ferramentas para coordenar compras conjuntas, a política não funcionou como esperado, e as autoridades reconhecem que, na prática, o mercado funciona segundo a lógica de "cada um por si".

Na Ásia, além disso, espera-se um verão mais quente, o que vai fazer disparar o uso do ar-condicionado, impulsionando a demanda por gás. Embora muitos países asiáticos dependam de contratos de fornecimento de longo prazo, uma combinação de maior consumo e reservas mais reduzidas poderia levá-los a comprar mais no mercado spot (à vista), onde os preços reagem imediatamente a qualquer pico de demanda.
Corrida às compras no final do verão
A Europa precisamente tem se apoiado mais intensamente no mercado spot este ano para garantir o abastecimento. Se a demanda asiática se intensificar ao mesmo tempo em que a Europa acelera as compras no final do verão para cumprir suas metas de armazenamento, poderá se desencadear uma competição direta por encomendas entre os continentes.
A agência europeia de energia ACER estima que atingir as metas possa exigir até 13% a mais de importações de gás natural liquefeito do que em 2025, um aumento difícil de concretizar se a produção nos países do Golfo Pérsico não se recuperar rapidamente.
O problema é agravado pelo calendário europeu de armazenamento. As regras da UE obrigam os países-membros a encher suas reservas de gás até pelo menos 80% da capacidade nacional até dezembro, algo que normalmente é feito no verão, quando a demanda e os preços costumam ser mais baixos.
No entanto, neste ano, os altos preços do verão acabaram com esse incentivo: comprar e estocar já não é tão lucrativo para os operadores, e os níveis de estoque estão abaixo da média dos últimos 5 anos.
A variável que poderia inclinar a balança
A variável que poderia inclinar a balança é a China, segundo o Politico. Desde o início da guerra desencadeada pelos EUA e por Israel contra o Irã, o país reduziu as importações e recorreu às suas amplas reservas, atuando como um freio para os preços globais.
Mas essas reservas diminuíram drasticamente desde março, ficando abaixo da média de cinco anos, comentou ao veículo o analista de GNL Charles Costerousse, da plataforma Kpler, que acompanha em tempo real o comércio internacional de matérias-primas.
Esse dado alimenta o temor europeu: se Pequim retornar "em grande estilo" ao mercado spot, a concorrência pelo gás natural liquefeito poderá se intensificar justamente quando a Europa mais precisa dele para encher seus depósitos antes do inverno.
- A Europa deixou de comprar gás russo barato, base de sua indústria, e o substituiu pelo gás natural liquefeito. A atual escalada no Oriente Médio já faz disparar os preços do petróleo e do gás e, ao abrir mão dos recursos energéticos russos, a UE ficou sem alternativas, o que Kremlin chamou de "tiro no próprio pé".

