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Como importante aliado dos EUA começa a se tornar o principal rival regional da China

Enquanto Washington tenta reduzir as tensões em suas relações com Pequim, seu principal aliado na Ásia intensifica cada vez mais sua retórica anti-China, ao mesmo tempo que aumenta seu poderio militar.
Como importante aliado dos EUA começa a se tornar o principal rival regional da ChinaImagem criada por inteligência artificial

Em meio às tentativas de Donald Trump de reduzir as tensões nas relações com a China, os aliados tradicionais de Washington na Ásia começam a se questionar sobre um ponto cada vez mais incômodo: os Estados Unidos estão preparados para continuar garantindo sua segurança em caso de crise?

Enquanto a Casa Branca fala em estabilizar as relações com Pequim, duras críticas ao gigante asiático são ouvidas com frequência crescente vindas de Tóquio.

"Pensem bem. Existe um país que possui um enorme arsenal de armas nucleares e bombardeiros estratégicos", declarou o ministro da Defesa japonês, Shinjiro Koizumi, no domingo (31), em um fórum de segurança.

"O Japão não possui nenhuma dessas armas. E, no entanto, o Japão é rotulado como 'novo militarismo'. Não é estranho?", questionou.

Tóquio não está apenas endurecendo drasticamente sua retórica, mas também aumentando rapidamente seu poderio militar, preparando-se gradualmente para um mundo no qual terá que confiar, acima de tudo, em sua própria força.

Retórica hostil

No mesmo evento, o ministro japonês argumentou que a região do Indo-Pacífico deveria permanecer aberta a países que compartilham "normas e princípios comuns", uma expressão que em Pequim é frequentemente interpretada como uma crítica velada à China.

Seu homólogo americano, Pete Hegseth, foi mais comedido, usando a expressão "estabilidade estratégica construtiva" para descrever os laços de Washington com Pequim, um slogan proposto pelo presidente Xi Jinping durante sua recente cúpula com Donald Trump.

Um alto funcionário chinês, por sua vez, respondeu duramente ao ministro japonês. "Duvido profundamente que um país que não erradicou completamente o legado tóxico do militarismo esteja em posição de falar amplamente sobre cooperação em defesa em fóruns internacionais e que possa conquistar a confiança da comunidade internacional, especialmente dos países asiáticos que outrora invadiu", disse o major-general Meng Xiangqing.

Com a ascensão da primeira-ministra Sanae Takaichi ao poder no ano passado, a retórica anti-China das autoridades japonesas se intensificou. As declarações referentes a Taiwan são o que mais preocupa Pequim. Há alguns meses, a primeira-ministra declarou no Parlamento que o futuro da ilha autônoma chinesa representava uma situação que "ameaçava a sobrevivência" do Japão.

Takaichi, portanto, abandonou a cautela diplomática que Tóquio havia mantido por muitos anos. Apesar das exigências da China para que ela se retratasse, ela se recusou.

Das palavras ao rearmamento

Na verdade, os grandes pronunciamentos de Tóquio são seguidos por medidas muito concretas.

Na última década, o Japão aumentou sistematicamente seus gastos militares. Em 2025, o orçamento de defesa do país ultrapassou US$ 62 bilhões, representando um aumento de quase 15% em relação ao ano anterior. Este ano, o investimento poderá chegar a US$ 66,5 bilhões, de acordo com o plano orçamentário. O governo de Takaichi também planeja aumentar os gastos com defesa de 1% para 2% do PIB até o ano fiscal de 2027-2028, uma mudança histórica em um país cuja Constituição do pós-guerra limita significativamente a atividade militar.

Tóquio também aspira a desempenhar um papel mais ativo na região. Já está trabalhando para intensificar a cooperação militar, o compartilhamento de informações e o treinamento com países como as Filipinas e a Austrália, além de oferecer US$ 10 bilhões em ajuda financeira a nações do Sudeste Asiático para lidar com a alta dos preços do petróleo, impulsionada pela guerra dos EUA e de Israel contra o Irã.

Além disso, segundo reportagens da imprensa local em novembro, o primeiro-ministro está considerando abandonar os Três Princípios Não Nucleares: não possuir, não produzir e não permitir a introdução de armas nucleares em território japonês.

Essas medidas estão causando preocupação não apenas na China, mas também na Rússia. "Há uma mudança gradual em direção a uma maior militarização do Japão, e este país está se afastando cada vez mais dos documentos e acordos — ou melhor, dos compromissos — que assumiu quando assinou o Acordo de Rendição. Hoje, fala-se que o Japão possui mísseis de médio e curto alcance e que sua frota está bem armada, e, claro, isso é motivo de preocupação", alertou o secretário do Conselho de Segurança da Rússia, Sergei Shoigu, na semana passada.

Preparando-se para viver sem os EUA

É revelador que esse novo aumento na atividade japonesa tenha ocorrido apenas uma semana após a reunião dos ministros das Relações Exteriores da aliança Quad, composta por EUA, Japão, Índia e Austrália.

Criada como um instrumento para conter a China, a aliança perdeu gradualmente seu ímpeto inicial nos últimos anos: Nova Déli não quer fazer do confronto com Pequim o elemento principal de sua política externa, enquanto as cúpulas de líderes se tornam cada vez menos frequentes. As políticas de Trump, que simultaneamente pressionam a Índia e tentam reduzir o confronto com a China, acrescentaram ainda mais incerteza.

A recente visita do presidente dos EUA à China apenas intensificou as preocupações entre os aliados asiáticos de Washington. "Se suas alianças não contribuem para o objetivo que estabeleceram para si mesmas, é bastante perigoso tensionar ainda mais as relações com Pequim", disse à RT Maxim Gabrielian, analista do Instituto de Economia Militar Mundial e Estratégia da Escola Superior de Economia de Moscou.

Nesse contexto, o Japão está gradualmente começando a tomar a iniciativa, visando consolidar sua posição como o principal rival regional da China. É precisamente por isso que a postura atual de Tóquio não parece ser apenas mais uma rodada de retórica anti-China. Ela reflete um processo muito mais profundo: os aliados dos EUA estão começando a questionar até que ponto o "guarda-chuva de segurança" americano continuará sendo confiável no futuro.

E quanto mais Washington busca ativamente maneiras de coexistir com Pequim, mais decisivamente seus parceiros na Ásia se preparam para um cenário em que precisariam se defender.