
Como aliança anti-China impulsionada pelos EUA perde peso político?

Após o fracasso da tentativa de realizar uma cúpula de líderes no ano passado, o Quad — aliança entre EUA, Índia, Japão e Austrália — realizou nesta semana uma reunião de chanceleres que terminou sem um entendimento claro sobre os próximos rumos do grupo.
Criada como um instrumento para conter a China, a coalizão enfrenta contradições internas cada vez mais evidentes, enquanto a falta de resultados concretos amplia as dúvidas sobre seu futuro.
Perdendo impulso
Desde o início do segundo mandato presidencial de Donald Trump, o Quad vem perdendo gradualmente peso político e dinamismo. A reunião atual deveria demonstrar unidade e dar novo impulso ao formato.
"Estamos profundamente comprometidos com esta aliança. Ela é um eixo e uma pedra angular de nossa estratégia global como nação nos Estados Unidos", declarou o secretário de Estado Marco Rubio.
No entanto, por trás das declarações grandiosas surgem divergências cada vez mais visíveis. Um dos principais problemas tem sido o deterioramento das relações entre os dois participantes mais importantes — EUA e Índia — após a imposição de novas tarifas por Trump e a pressão de Washington sobre Nova Délhi devido aos seus vínculos com a Rússia.
A recente visita de Trump à China — a primeira de um presidente americano em uma década — também gerou inquietação adicional entre os aliados. A viagem de Rubio foi, na prática, uma tentativa de tranquilizar os parceiros e demonstrar que Washington não está abandonando sua linha na Ásia.

"Trata-se, essencialmente, de uma tentativa de controlar os danos", afirmou Umi Ariga, analista do Instituto Japonês de Assuntos Internacionais. Segundo ela, a reunião do Quad na terça-feira (26) foi "uma tentativa de definir uma data para a cúpula antes que o grupo caia na irrelevância".
"Da perspectiva de Pequim, a viagem de Rubio revela a ansiedade subjacente de Washington. Se o Quad tivesse plena confiança e estivesse estrategicamente alinhado, não haveria necessidade de dar garantias", declarou o analista Einar Tangen à Al Jazeera.
"Essa percepção é importante porque ajuda a explicar por que Rubio foi posteriormente enviado para assegurar à Índia, ao Japão e à Austrália que o Quad continua relevante e que Washington mantém seu compromisso com o equilíbrio no Indo-Pacífico", acrescentou.
Na China, a reunião dos membros do grupo foi recebida de forma negativa.
"Certos países deveriam deixar de interferir nos assuntos marítimos na vizinhança da China e respeitar sinceramente os esforços dos países da região para salvaguardar a paz e a estabilidade. Aqueles que tentam formar pequenos grupos, alimentar tensões e estimular confrontos não encontrarão apoio", declarou a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Mao Ning.
Condenado ao fracasso
Os problemas do Quad apenas se agravaram, embora já estivessem implícitos na própria estrutura da aliança desde sua criação.
"Fundado com o objetivo de conter a rápida ascensão da China, o Quad sempre demonstrou hesitação em relação a esse objetivo. Seus comunicados conjuntos nunca mencionaram a China nominalmente, embora as críticas às políticas de Pequim, como a coerção marítima, estejam sempre implícitas. (...) Mas muito mais significativa do que essa timidez em relação à China é a confusão do Quad sobre sua identidade fundamental. O Quad é um clube de segurança ou de bens públicos? Se for ambos, pode cumprir as duas funções e alcançar seus objetivos?", questionou Sarang Shidore, diretor do programa Sul Global do Instituto Quincy para Governança Responsável, nos EUA.
Em entrevista à RT, Maxim Gabrielian, analista do Instituto de Economia e Estratégia Militar Mundial da Escola Superior de Economia de Moscou, afirmou que a organização atravessa uma "crise latente", já que cada integrante possui uma visão diferente sobre o papel da plataforma.
"Temos EUA, Índia, Japão e Austrália. O problema é que os EUA consideram o Quad um instrumento para conter a China. Por isso, têm interesse em transformar esse diálogo de segurança em algo mais rígido, com critérios mais claros de adesão e assistência mútua em caso de ações militares", afirmou, acrescentando que Japão e Austrália compartilham visão semelhante.
"Mas a Índia vê o Quad de forma um pouco diferente. É evidente que a Índia tem uma relação complexa com a China, mas enxerga o Quad como apenas um dos muitos fóruns dos quais participa. Para ela, o Quad não é um fim em si mesmo, mas um meio. Ou seja, uma forma de ampliar sua presença na região indo-pacífica", acrescentou.
Em um contexto no qual Trump tenta reduzir as tensões com Pequim, a organização começa a perder gradualmente o impulso inicial.
"Se suas alianças não contribuem para o objetivo que estabeleceram, torna-se bastante perigoso continuar agravando as relações com Pequim", destacou o analista.
Em busca de um novo papel
Apesar disso, os membros do Quad tentam encontrar novos objetivos para a organização, como seu primeiro projeto conjunto de infraestrutura: um porto em Fiji.
"Vamos cooperar em questões de infraestrutura portuária, em particular para enfrentar a insuficiente capacidade portuária nas ilhas do Pacífico. Anunciamos planos para trabalhar com Fiji", disse Rubio.
"Por que isso é importante? Desde 2011, Fiji tem sido um país muito pró-China, mas nos últimos quatro anos ocorreu uma tendência inversa, na qual EUA, Austrália e Nova Zelândia vêm recuperando espaço", afirmou Gabrielian.
Nesse contexto, o especialista destacou que, apesar da crise, a disputa contra a influência chinesa dentro da organização continuará, independentemente da presidência de Trump.
"É muito revelador, mais uma vez, que em todas essas medidas os EUA não atuem sozinhos, mas envolvam os membros do Quad. Isso indica que Washington tentará combater a influência chinesa não com seus próprios meios, mas por meio das potências locais, ou seja, através de um equilíbrio externo de poder", concluiu.


