Durante décadas, o garimpo ilegal de ouro avançou sobre a Amazônia como uma frente silenciosa de destruição — contaminando rios com mercúrio, devastando terras indígenas e alimentando redes criminosas que cruzam as fronteiras do Brasil com a Colômbia ou o Peru.
Neste 5 de junho, Dia Mundial do Meio Ambiente, os dados mais recentes apontam para uma inflexão real: pela primeira vez em anos, a tendência começa a se reverter. Uma combinação de operações sistemáticas, acordos internacionais inéditos e monitoramento por satélite está reduzindo o garimpo ilegal a níveis que poucos acreditavam serem possíveis tão rapidamente — e mostrando que proteger a Amazônia não é apenas uma aspiração, mas uma política que funciona quando levada a sério.
Como funciona o garimpo ilegal
Para entender o que está sendo desmantelado, é preciso conhecer como o garimpo ilegal opera. O processo gira em torno das balsas de dragagem. Na versão mais simples, trata-se de uma estrutura de madeira com um motor à gasolina e uma mangueira de cerca de 20 centímetros de diâmetro que suga a lama do leito do rio. Essa lama passa por um misturador que retém as partículas de ouro e devolve o sedimento à correnteza.
Uma balsa desse tipo pode produzir até 40 gramas de ouro por dia. O custo de construção varia entre US$ 8 e US$ 10 mil. O ouro extraído é vendido localmente por US$ 400 a US$ 600, mas vale até US$ 2 mil no mercado internacional — margem que explica a persistência dessa atividade criminosa.
Acima das balsas comuns, na escala do crime, estão os chamados "dragões": embarcações de vários andares, com motores de 60 cavalos de potência e mangueiras de até 38 centímetros de diâmetro. Cada um custa cerca de US$ 45 mil para ser construída, o que pressupõe financiadores com um capital significativo. O mercúrio, usado para separar o ouro dos sedimentos, é o veneno invisível desse processo — levado pela correnteza, contamina rios, peixes e as comunidades indígenas que deles dependem.
A virada nas terras Yanomami
O território Yanomami — quase 10 milhões de hectares na fronteira do Brasil com a Venezuela — tornou-se o epicentro simbólico e operacional da resposta brasileira ao garimpo ilegal. Dezenas de milhares de garimpeiros invadiram essas terras, deixando um rastro de poços de lama, rios contaminados e comunidades com desnutrição aguda.
A partir de fevereiro de 2023, o governo federal lançou uma ofensiva sistemática que, dois anos depois, produziu números expressivos. Entre março de 2024 e janeiro de 2026, a área de garimpo ativo na Terra Indígena Yanomami caiu de 4.570 hectares para 56,13 hectares — uma redução de 98,77%. Para chegar a esse resultado, foram realizadas cerca de 9 mil ações de segurança, com inutilização de 45 aeronaves, 77 pistas de pouso clandestinas e 762 acampamentos ilegais.
O impacto financeiro sobre a cadeia criminosa também é mensurável. As operações causaram prejuízos estimados em mais de R$ 642 milhões à atividade ilegal. Entre 2024 e 2025, foram apreendidos 249 quilos de ouro e 232 quilos de mercúrio — esse último dado é particularmente relevante, pois o mercúrio é o insumo que torna o garimpo possível e, ao mesmo tempo, o que mais contamina os ecossistemas amazônicos.
A retração das áreas de garimpo teve consequências diretas na saúde das comunidades Yanomami: as mortes por desnutrição na região caíram 68% em dois anos de operações federais. É um indicador que conecta a proteção ambiental diretamente à sobrevivência humana.
Desmatamento em queda pela terceira vez seguida
A recuperação vai além do combate ao garimpo. A área desmatada na Amazônia atingiu 5.796 km² entre agosto de 2024 e julho de 2025 — uma queda de 11,08% em relação ao período anterior e a terceira menor taxa registrada desde que o monitoramento começou, em 1988. É o terceiro ano consecutivo de redução desde o início do governo Lula, que acumula uma retração de 50% no desmatamento da Amazônia em comparação com 2022.
O Pará, estado que sediará a COP30 em novembro de 2025, liderou os resultados positivos: registrou queda de 51% no desmatamento no acumulado de agosto a novembro de 2025, o menor valor de toda a série histórica — e uma retração de 80% em relação ao pico de 2020.
A nova fronteira da cooperação regional
Um dos avanços mais significativos no horizonte é a construção de uma resposta verdadeiramente transnacional. O crime ambiental na Amazônia nunca respeitou fronteiras; agora, o combate também começa a operar dessa forma.
Em janeiro de 2025, Brasil e França assinaram um acordo bilateral de combate ao garimpo ilegal que inclui operações conjuntas na fronteira com a Guiana Francesa, rastreamento da origem geológica do ouro pelo programa "Ouro Alvo" e reuniões mensais entre autoridades policiais dos dois países para troca de informações. O programa analisa a assinatura físico-química do metal para impedir sua lavagem no mercado internacional.
Em junho de 2025, o Ministério Público Federal reuniu representantes do Peru, Bolívia, Colômbia, Equador, Suriname e Guiana num workshop sobre estratégias regionais de combate ao garimpo ilegal, organizado em parceria com a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA). E em maio de 2025, a União Europeia, o Instituto Igarapé e a Fundação para a Conservação e o Desenvolvimento Sustentável (FCDS, da Colômbia) lançaram oficialmente o projeto "Segurança, Conflitividade e Meio Ambiente na Amazônia", com foco no fortalecimento da cooperação regional entre Brasil, Colômbia, Peru, Equador e Venezuela.
Em maio de 2026, o governo federal anunciou R$ 209 milhões adicionais para o combate ao crime organizado na Amazônia, por meio do plano AMAS (Amazônia: Segurança e Soberania), com acordos firmados entre o governo federal, universidades e forças de segurança estaduais, financiados em parte pelo Fundo Amazônia do BNDES.
O que ainda precisa avançar
Os números são encorajadores, mas os pesquisadores do Instituto Igarapé são os primeiros a reconhecer que o caminho ainda é longo. Apesar da queda de 46% nas novas áreas afetadas pelo garimpo na Terra Yanomami em 2025 em relação a 2024, a atividade ainda persiste no território três anos após a decretação de emergência de saúde. No total, até dezembro de 2025, o garimpo ilegal havia destruído 5.564 hectares de terra Yanomami ao longo da história.
A recuperação ambiental de áreas degradadas pelo garimpo — revegetação dos leitos de rio, descontaminação do mercúrio, restauração de matas ciliares — é um processo que leva décadas. E as redes criminosas que financiam o garimpo têm capacidade de adaptação: quando pressionadas em um ponto, buscam outro. A presença do Estado nas fronteiras, o monitoramento permanente e a oferta de alternativas econômicas para às comunidades que hoje dependem da cadeia ilegal são condições estruturais que nenhuma operação pontual resolve sozinha.
A floresta como símbolo de uma escolha possível
Neste Dia Mundial do Meio Ambiente, a trajetória recente da Amazônia brasileira oferece algo raro no debate ambiental: evidência de que a política pública funciona quando há vontade política para executá-la. A queda de 98,77% no garimpo ativo da Terra Yanomami, a redução do desmatamento por três anos consecutivos, os acordos internacionais que começam a criar um escudo transfronteiriço — tudo isso não apaga o que foi destruído, mas demonstra que o caminho inverso é possível.