
Barbacena fecha manicômio que recebeu mães solteiras, homossexuais e pessoas rejeitadas pela sociedade

Barbacena encerrou na segunda-feira (25) um dos capítulos mais duros da história da saúde mental no Brasil.
Os últimos 14 moradores do antigo Hospital Colônia foram transferidos para uma residência terapêutica no município, em um processo conduzido pelo Governo de Minas Gerais e pela Prefeitura de Barbacena.
Com a saída do grupo, chegam ao fim as internações asilares de longa permanência ligadas ao antigo modelo manicomial da cidade.
A cerimônia de encerramento teve como gesto central o fechamento simbólico da porta do Pavilhão Antônio Carlos com um cadeado.
Segundo a Agência Minas, o ato representou o compromisso do Estado com a memória, a dignidade humana e o cuidado em liberdade.

A solenidade reuniu o secretário de Estado de Saúde, Fábio Baccheretti, o prefeito de Barbacena, Carlos Augusto Soares do Nascimento, a presidente da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais, Renata Dias, o diretor do Complexo Hospitalar de Barbacena, Claudinei Emídio Campos, além de ex-pacientes, profissionais de saúde e autoridades locais.
Os 14 moradores, todos idosos, passaram a viver em uma residência preparada para recebê-los, com acompanhamento de equipe especializada. O portal g1 informou que o mais velho tem 91 anos, que nenhum mantém contato com familiares e que a maioria apresenta quadro de saúde debilitado.
Os moradores viveram, em média, 49 anos internados, têm idade média de 73 anos e três chegaram à instituição antes dos 15 anos, segundos dados apresentados pela Agência Minas.

O fim de uma estrutura de confinamento
O fechamento do antigo Hospital Colônia não significa o encerramento da assistência psiquiátrica em Barbacena. De acordo com o Governo de Minas, o Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena seguirá como referência para crises agudas e atendimentos ambulatoriais, conforme os critérios da Rede de Atenção Psicossocial, a RAPS, do Sistema Único de Saúde.

A mudança central está no destino dos moradores que ainda permaneciam institucionalizados. A partir de agora, o cuidado deixa de ocorrer em regime de internação de longa permanência e passa a ser feito em residência terapêutica, modelo voltado a pessoas que passaram anos em hospitais psiquiátricos e perderam vínculos familiares ou comunitários.
Para o secretário de saúde de MG, Fábio Baccheretti, o encerramento representa o fim de um processo iniciado há décadas. "A história de milhares de pessoas que foram jogadas e morreram nos pavilhões se encerra hoje, com a saída dos últimos 14 pacientes. É talvez o momento mais emocionante nos anos que estive à frente da Secretaria" afirmou.

Uma história que começou como sanatório
O espaço foi inaugurado em 1903 como Sanatório de Barbacena, voltado inicialmente ao tratamento de tuberculose. Em 1911, passou a ser conhecido como Hospital-Colônia, o primeiro hospital psiquiátrico público de Minas Gerais. Ao longo do século XX, tornou-se um dos símbolos do modelo manicomial no país.
Embora tenha sido criado como instituição destinada ao tratamento de pessoas com transtornos mentais, o local passou a receber também pessoas sem diagnóstico adequado.
Entravam ali não apenas pacientes psiquiátricos, mas pessoas rejeitadas por famílias, por empregadores ou pelos padrões sociais da época.
Entre os grupos citados estavam mães solteiras, epilépticos, homossexuais*, militantes políticos, grávidas, pessoas com deficiência, mulheres rejeitadas pelos maridos e pessoas consideradas fora das normas sociais.

Os números da tragédia
Os dados sobre o Hospital Colônia variam conforme a fonte e o período analisado. O Estado de Minas Gerais informa que, entre 1942 e 2020, 40 mil pessoas passaram pela instituição, cerca de 24 mil morreram e, em determinado momento, o local chegou a reunir 3.500 pacientes ao mesmo tempo.
Já portais como g1 e EL PAÍS mencionam o número de cerca de 60 mil mortes ao longo do funcionamento da instituição.
Segundo o portal brasileiro, pelo menos 1.800 corpos foram vendidos e usados no ensino de anatomia em cursos de saúde de universidades.
A história desses corpos voltou ao debate público depois que a Universidade Federal de Minas Gerais e a Universidade Federal de Juiz de Fora publicaram pedido público de desculpas pela prática.
Mais do que estatísticas, os números ajudam a dimensionar o que ocorreu dentro dos pavilhões. Muitos dos internados viviam sem cuidado adequado, sem alimentação em condições compatíveis com a dignidade e sem vínculos externos.
O g1 informou que pacientes dormiam no chão, em um modelo chamado de "leito único", cobertos por capim seco. Também relatou o uso de eletrochoque como punição, sem anestesia e por funcionários sem qualificação.

Memória e reparação
Durante a cerimônia, um dos pacientes remanescentes, Bento, resumiu o significado do ato.
"É um momento de reparação histórica, de passar um cadeado definitivo nesta história de dor e também relembrar que este é um passado que jamais deve se repetir", disse.

A presidente do Conselho Estadual de Saúde, Lourdes Machado, também relacionou o fechamento ao dever de reparação. "Quando era estudante, visitei aqui e isso definiu minha carreira, com a missão de defender a luta antimanicomial. Que essas pessoas tenham um final de vida digno, é nosso dever defendê-los, reparar esse passado", afirmou, de acordo com a Agência Minas.
A história do Hospital Colônia ganhou repercussão nacional por meio de registros jornalísticos, fotográficos e documentais. A tragetória da instituição foi contada no livro-reportagem "Holocausto Brasileiro", da jornalista Daniela Arbex, obra que ficou em segundo lugar no Prêmio Jabuti em 2014.
Em reportagem, o EL PAÍS relembrou a visita, em 1979, do psiquiatra italiano Franco Basaglia, ligado à reforma psiquiátrica na Itália. Após conhecer o local, ele afirmou: "Hoje estive num campo de concentração nazista. Em nenhum outro lugar vi algo parecido".
Parte dessa memória permanece no Museu da Loucura, instalado no complexo hospitalar. O espaço continuará funcionando no bairro Floresta, com textos, fotografias, documentos, objetos, equipamentos e instrumentos cirúrgicos relacionados à história do tratamento das pessoas que passaram pelo hospital.

A nova casa dos últimos moradores
A Prefeitura de Barbacena informou que estruturou uma residência com modelo específico de assistência para acolher os 14 pacientes oriundos do centro hospitalar. Segundo o município, a iniciativa segue as diretrizes da RAPS e prioriza cuidado em liberdade, acolhimento e inclusão social.
A proposta é reconstruir vínculos, ampliar autonomia e permitir que os moradores retomem atividades cotidianas em ambiente comunitário.
Segundo o Governo de Minas, desde 2019 a Secretaria de Estado de Saúde conduz a desinstitucionalização de usuários do CHPB. Entre 2019 e 2025, 68 moradores receberam alta para continuidade do cuidado em liberdade. Em 2022, houve 27 transferências para Serviços Residenciais Terapêuticos em Antônio Carlos, Carandaí e Ibertioga.

Um ponto final e uma continuidade
A cerimônia de segunda-feira (25) também contou com homenagens. Segundo a Prefeitura de Barbacena, Fábio Baccheretti recebeu a Medalha Sobral Pinto, a honraria mais alta concedida pelo município.
Claudinei Emídio Campos, diretor geral do complexo hospitalar, recebeu a Medalha de Cidadão Honorário, e o secretário municipal de saúde, Gustavo Ferreira, recebeu placa de reconhecimento.
Para o prefeito Carlos Augusto Soares do Nascimento, o encerramento das atividades do antigo Hospital Colônia representa uma mudança de página para o município.
"Hoje, Barbacena vive um momento histórico. O fechamento definitivo das portas do antigo Hospital Colônia simboliza um compromisso coletivo com a liberdade, com a inclusão e com a valorização da vida humana. Barbacena carrega uma história que jamais será esquecida, mas hoje mostramos ao mundo que é possível transformar dor em esperança, memória em aprendizado e cuidado em acolhimento".
*O movimento internacional LGBT é classificado como uma organização extremista no território da Rússia e proibido no país.

