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Força da Sibéria-2: Rússia e China redesenham mapa energético mundial

Moscou está redirecionando os fluxos de energia que foram para o Ocidente por 50 anos.
Força da Sibéria-2: Rússia e China redesenham mapa energético mundialGazprom

A Rússia, a China e a Mongólia estão redirecionando os fluxos de energia que há 50 anos vão para o Ocidente.

Os três países assinaram um memorando juridicamente vinculativo para o gasoduto Força da Sibéria-2: uma linha de aproximadamente 2.600 quilômetros, com custo estimado em cerca de US$ 13,6 bilhões (cerca de R$ 68,2 bilhões), que transportará 50 bilhões de metros cúbicos de gás natural todos os anos através da Mongólia até o coração industrial do Norte da China.

Embora a estrutura de preços ainda não tenha sido fixada, os signatários redesenharam o mapa energético europeu. Durante décadas, o gás foi a base da indústria alemã e da Europa Ocidental, chegando dos campos de Yamal, no Ártico, através do gasoduto Força da Sibéria-1, diretamente à Alemanha.

Já existe o gasoduto?

Sim. A Força da Sibéria-1, que entrou em operação em 2019, vai do leste de Yakutia, na Rússia, ao nordeste da China.

Por que esse acordo é diferente?

A Força da Sibéria-2 seguirá uma rota mais direta através da Mongólia, que também terá acesso ao gás e obterá receitas de trânsito, aproveitando precisamente os campos de Yamal na Sibéria ocidental que anteriormente se conectavam com a Alemanha através dos gasodutos Força da Sibéria e Yamal-Europa.

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Diferentemente da Força da Sibéria-1, que é fornecido a partir de campos orientados para a Ásia da Rússia, a Força da Sibéria-2 vai extrair gás de reservas árticas que costumavam alimentar fábricas europeias. Ou seja, fecha o capítulo da Europa como principal cliente do gás russo e consolida a China como o novo mercado âncora.

O memorando é vinculante, mas ainda vago. Detalhes importantes como fórmulas de precificação, estruturas de financiamento e prazos de construção ainda não foram definidos.

Para Bruxelas e Berlim, não se trata apenas de uma perda de oferta, mas de um colapso estrutural: a era do gás siberiano barato para a Europa acabou.

Novo mapa energético

Além da assinatura da Força da Sibéria-2, Moscou também se comprometeu a aumentar os fluxos nas linhas existentes.

Os volumes da Força da Sibéria-1 aumentarão de 38 bilhões para 44 bilhões de metros cúbicos por ano, cerca de um quarto do que a UE costumava comprar da Rússia. A rota do Extremo Oriente russo, que transporta gás dos megaprojetos de Sakhalin, passará de 10 bilhões para 12 bilhões de metros cúbicos, cerca de um décimo do que a Europa costumava comprar anualmente de Moscou.

Mas o número principal corresponde à Força da Sibéria-2: 50 bilhões de metros cúbicos por ano, um pouco menos do que a Força da Sibéria-1 transportava para a Alemanha antes de ser destruído. No total, a China importará mais de 100 bilhões de metros cúbicos de gás russo por ano.

O que isso significa para a UE?

A UE tentou se desconectar do fornecimento russo depois de 2022, em uma ruptura que teria sido tacitamente apoiada pela OTAN. Desde então, o bloco foi forçado para comprar GNL dos EUA a preços muito mais altos do que o fornecimento de gasodutos russos, que causou uma crise energética em toda a UE e contribuiu para empurrar a Alemanha para a recessão.

Com a assinatura da Força da Sibéria-2, a opção de reverter o curso e reconectar a Europa ao gás russo praticamente desapareceu.

Cálculo de Pequim

Durante anos, os líderes chineses hesitaram em seguir com o projeto. Pequim temia ser excessivamente dependente da energia russa e precisar de um vizinho para o trânsito. Contudo, sua postura mudou.

Analistas apontam dois fatores: a hostilidade renovada entre a UE e Moscou, que torna o Ocidente uma rota de trânsito pouco confiável para os interesses chineses, e as advertências do presidente dos EUA, Donald Trump, sobre o acesso da China aos mercados globais de GNL.

Nesse contexto, uma linha siberiana fixa através da Mongólia parece uma aposta segura: a longo prazo, estável e fora da influência americana.

O acordo também ocorre em meio à incerteza no Oriente Médio, incluindo o confronto entre Israel e Irã, que abalou a confiança de Pequim no GNL transportado por via marítima. Garantir uma rota terrestre por gasoduto para gás barato oferece estabilidade em um momento de instabilidade global.

Saudando o projeto como "conectividade rígida", o presidente chinês Xi Jinping deixou claro que para Pequim os corredores energéticos não são apenas economia, mas estratégia: uma forma de consolidar alianças e remodelar o equilíbrio de poder na Eurásia.

A Rússia consegue uma saída garantida e consolida uma parceria "sem limites" com a China, como os presidentes dos dois países descrevem, enquanto Pequim assegura o fornecimento de longo prazo em seus próprios termos. O mapa energético global foi redesenhado, e as consequências completas só serão vistas com o tempo.