Manual de interferência: Cuba expõe 'prática obscura' dos EUA

Documentos desclassificados revelaram que a Casa Branca estava ciente dos sobrevoos ilegais sobre o território cubano e do risco de catástrofe que representavam.

O governo cubano denunciou Washington por usar manobras judiciais "obscuras" para justificar agressões contra países soberanos, depois que o Departamento de Justiça dos EUA apresentou acusação contra o ex-presidente cubano Raúl Castro e outros cinco cubanos pela morte de quatro pessoas em 1996, causada pela derrubada de dois aviões que entraram ilegalmente no espaço aéreo da ilha.

"Essa acusação — contra Raúl Castro — acarreta uma ameaça adicional, uma vez que se sabe da prática obscura dos EUA de utilizar acusações como essa para agir militarmente contra países soberanos. Seu pretexto não é a justiça; seu pretexto é o uso do poderio militar colossal que o governo dos EUA possui. É preciso dizer e deixar claro que qualquer tentativa de utilizar essa desculpa para uma ação contra esses companheiros dentro de Cuba encontrará uma resistência feroz do povo cubano", afirmou o vice-ministro das Relações Exteriores, Carlos Fernández de Cossío, em entrevista ao programa 'Mesa Redonda'.

Alcance e motivações da "acusação fraudulenta"

O diplomata descreveu a acusação contra Castro e as outras cinco pessoas como "fraudulento", já que "não tem qualquer fundamento legal, político ou moral", e assegurou que "deve ser visto como parte da escalada agressiva" desencadeada pela Casa Branca contra o país caribenho durante 2026. "Não é um incidente isolado: é parte dessa agressão, um ato desonesto dentro dessa agressividade", afirmou.

Para o vice-ministro, o processo contra o líder da Revolução Cubana também pode ser visto "como uma espécie de favor político a uma camarilha que não é representativa dos Estados Unidos, nem mesmo representante dos cubanos que vivem nos Estados Unidos, mas politicamente e economicamente bem posicionada", que conseguiu exercer "uma influência desproporcional nas decisões tomadas pelo "governo americano", graças à natureza corrupta do sistema político dos Estados Unidos.

"E também deve ser visto como parte de um fenômeno que vem acontecendo nas últimas semanas, em que a grande imprensa, tanto internacional quanto a grande imprensa americana, está promovendo a ideia da suposta inevitabilidade de uma agressão dos EUA contra Cuba", acrescentou.

O que realmente aconteceu

Fernández de Cossío apresentou um relato detalhado do que aconteceu não apenas em 24 de fevereiro de 1996, quando Cuba abateu dois pequenos aviões norte-americanos que violaram seu espaço aéreo, mas nos 20 meses anteriores, onde até em "25 ocasiões, o governo cubano se dirigiu ao Departamento de Estado por via diplomática e à Administração Federal de Aviação dos EUA" para denunciar a incursão irregular em seu território de aeronaves pilotadas por membros da "organização hostil" Hermanos al Rescate e alertar sobre os perigos que tal prática acarretava.

"Nosso governo também exigiu que o governo dos EUA retirasse as licenças de voo [dos pilotos que voam ilegalmente sobre Cuba]. O governo dos EUA chegou a retirar a licença de voo do líder daquela organização — Hermanos al Rescate —, um certo [José] Basulto. E mesmo assim, continuou voando, conhecido do governo e das autoridades americanas", afirmou.

Cerca de 40 dias antes dos acontecimentos, as autoridades cubanas emitiram um comunicado "dizendo, textualmente, que qualquer aeronave que sobrevoasse seu espaço aéreo sem autorização seria interceptada e, se necessário, neutralizada", alertando que "Cuba tinha os meios para proteger seu espaço aéreo", explicou o vice-ministro das Relações Exteriores.

Diante da falta de ações oportunas por parte de Washington, Havana mandou recado ao então presidente Bill Clinton, e obteve aviso de recebimento, "alertando" sobre o perigo de sobrevoos não autorizados, mas em vez de fazê-los parar, manteve a tolerância à irregularidade, a ponto de não ter feito nada para impedir os acontecimentos de 24 de fevereiro de 1996.

"No dia dos acontecimentos, sabe-se que tanto o Departamento de Estado quanto o Conselho de Segurança Nacional e a Autoridade de Aviação Civil sabiam que a incursão de voo iria acontecer. Conheciam isso até da noite anterior na Casa Branca e não agiram; ou seja, tomaram a decisão de não agir, houve cumplicidade nesse fato", denunciou Fernández de Cossío.

O diplomata mencionou que foram desclassificadas informações que incluem comunicações do Departamento de Estado e de outras agências governamentais dos EUA reconhecendo que "incursões aéreas ilegais" são uma "violação do direito internacional", alertando sobre o perigo que elas têm e até mencionando um cenário catastrófico de consequências terríveis se as provocações continuassem. "Chegam até a dizer que era muito provável que Cuba tomasse uma ação para proteger seu espaço aéreo", afirmou.

O vice-ministro concluiu que tudo isso coloca a responsabilidade pelas mortes pelas quais Castro e outros cidadãos cubanos foram acusados ​​hoje diretamente sobre Washington. "Portanto, o que foi feito hoje não foi um ato de justiça, mas um ato de injustiça contra um grupo de camaradas cubanos, a começar pelo General do Exército [Raúl Castro], que estavam cumprindo seu dever", acrescentou.