
Como domínio da China se fortalece graças a Trump?

Stephen M. Walt, colunista e acadêmico de Harvard, admitiu ter subestimado em análises anteriores sobre a ascensão da China a impulsividade, os erros e a incompetência de Donald Trump na política externa.
Para ele, a presença de figuras críticas à China, como o secretário de Estado Marco Rubio e o subsecretário de Defesa para Assuntos Políticos, Elbridge Colby, "junto com um consenso bipartidário no Capitólio, manteria o poder americano suficientemente focado em ajudar nossos aliados asiáticos a conter a China", confessou.
"Desarmamento unilateral"
O especialista afirmou que, desde 2025, o governo Trump vem enfraquecendo a estrutura científica do país por meio de cortes orçamentários, demissões e confrontos com universidades. Na avaliação dele, essa estratégia, classificada como "desarmamento unilateral" diante do avanço tecnológico da China, faz com que os Estados Unidos estejam abrindo mão da liderança em energias limpas, baterias avançadas e veículos elétricos para priorizar os combustíveis fósseis.

Além disso, Walt considerou que as tarifas impostas contra a China e outros países foram arbitrárias e mal implementadas, lembrando também que fracassaram quando Pequim restringiu a exportação de minerais de terras raras. Segundo ele, essas medidas, além de ilegais, não conseguiram revitalizar a indústria manufatureira americana e, na prática, a pressão tarifária sobre aliados para forçar investimentos gerou ressentimento e enfraqueceu suas economias.
Segundo o analista, a gestão de Trump também tensionou as relações na região, algo evidenciado por atritos com a Índia e pela ausência de embaixadores em diversos países. Além disso, ele afirma que a retirada dos Estados Unidos de várias organizações internacionais deixou um vazio que a China vem aproveitando para ampliar sua influência e definir normas globais. Walt acrescenta que essa ausência diplomática transmite uma mensagem de desinteresse em cooperar com outros países, o que pode prejudicar empresas americanas caso passem a ficar sujeitas a regulações definidas por terceiros.
Irã como grande distração
Para Walt, a crise com o Irã funciona como uma grande distração que impede uma estratégia sólida na Ásia. Ele recorda que Trump prometeu concentrar esforços no crescimento do poder chinês, mas acabou preso ao Oriente Médio, assim como seus antecessores. O professor considera que a responsabilidade pela situação recai diretamente sobre o presidente dos EUA, embora não descarte que ela também seja compartilhada com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu.
Em sua publicação, Walt afirma que a mobilização em massa no golfo Pérsico enfraqueceu a posição militar dos Estados Unidos na Ásia, gerando desconfiança entre os parceiros do continente. Ele destaca ainda que o planejamento e a execução improvisados da guerra contra o Irã podem estar provocando profunda preocupação entre aliados históricos, já que eles não foram consultados nem foram consideradas as possíveis consequências que poderiam sofrer.
O governo Trump também teria ignorado o impacto global de um ataque ao país persa, incluindo consequências graves como o aumento dos preços dos combustíveis e a redução das projeções de crescimento econômico.
Temores sobre a hegemonia chinesa ganham força
"É difícil para mim dizer tudo isso, porque o derrotismo pode se transformar em uma profecia autorrealizável, e não quero dar a entender que tudo está perdido e que provavelmente a China acabará se impondo. Mesmo agora, eu preferiria jogar com a mão dos Estados Unidos do que com a que a China recebeu, porque Washington ainda tem mais poder do que Pequim. Mas gostaria que nossa mão estivesse sendo jogada por alguém que entendesse as regras do jogo e soubesse o valor de cada carta", declarou Walt.
Em artigo de 2023, e em uma versão mais extensa publicada em 2025, o autor havia argumentado que, embora não fossem absurdos, os temores sobre a hegemonia chinesa eram exagerados. Ele sustentou que, com exceção do caso dos Estados Unidos, as tentativas modernas de domínio regional costumam fracassar, destacando ainda que as perspectivas para uma coalizão de equilíbrio na Ásia eram favoráveis, já que tanto os vizinhos de Pequim quanto os de Washington se oporiam ao domínio chinês.
Por isso, concluiu que uma tentativa aberta de hegemonia por parte da China seria imprudente e provavelmente malsucedida devido à tendência das potências de reagirem contra ameaças.

