
Trump enfraquecido e Xi com novos trunfos: como EUA e China chegam às negociações

Após mais de dois meses de intensa guerra contra o Irã, o presidente dos EUA, Donald Trump, finalmente chegou a Pequim nesta quarta-feira (13).
Trump se reunirá com o presidente chinês Xi Jinping na quinta (14) e na sexta-feira (15), em uma visita que inicialmente seria em março, mas foi frustrada pelo conflito no Oriente Médio.

Paradoxalmente, a guerra, que seria uma forma de enfraquecer a China ao afetar seu acesso ao petróleo e um de seus principais parceiros, acabou dificultando a situação dos próprios EUA.
Enquanto Trump tenta manter o controle, a China chega às negociações com mais poder de pressão e sensação de vantagem estratégica.
Trump enfraquecido pela guerra
Em conversa com a RT, Marco Fernandes, membro do Conselho Civil do BRICS e analista geopolítico do veículo Brasil de Fato, destacou o caráter excepcional do encontro para as relações sino-americanas.
"Pelo menos em um aspecto, esta reunião entre Trump e Xi será histórica: nunca antes, em uma cúpula entre a China e os Estados Unidos, um presidente americano se mostrou tão enfraquecido diante de um presidente chinês", afirmou o especialista.
Segundo ele, Pequim acabou se tornando um dos principais beneficiários da guerra em torno do Irã.
"Trump pode até conseguir eventuais acordos comerciais (como a venda de aviões da Boeing ou produtos agrícolas), ou alguma aliança na luta contra o tráfico de drogas, mas a verdade é que, neste momento, a China é uma das maiores beneficiárias da derrota estratégica dos EUA no Irã, e talvez Xi Jinping aproveite sua posição para obter alguma vantagem em relação a Taiwan, como a redução da venda de armas", indicou.
Taiwan também se viu entre as partes perdedoras do conflito, que esgotou consideravelmente as reservas de armamento dos EUA e enviou sinais de alarme aos aliados de Washington.
"Na verdade, Taiwan é também um dos grandes perdedores da guerra na Ásia Ocidental: segundo estimativas de estudos americanos, após gastar uma parte considerável de suas reservas militares, os EUA levarão cerca de seis anos para repor essas reservas ao nível necessário para defender Taiwan em um eventual conflito com a China", opina Fernandes.
A líder da oposição em Taiwan, Cheng Li-wun, também visitou Pequim em abril em uma "missão de paz" a convite de Xi Jinping, na que foi a primeira visita de um presidente do Kuomintang ao continente em uma década.
De acordo com a CNN, a guerra contra o Irã suscitou entre os taiwaneses dúvidas sobre até que ponto os EUA poderiam manter sua atenção caso ocorressem várias crises ao mesmo tempo. Os atrasos nas remessas de armas, o esgotamento das reservas de armamento e a abordagem transacional de Trump em relação a aliados e parceiros não fazem senão reforçar essas dúvidas.
Na véspera das negociações, as autoridades chinesas voltaram a sublinhar que Taiwan continua sendo uma questão prioritária em suas relações com Washington.
"A questão de Taiwan afeta os interesses fundamentais da China e constitui a primeira linha vermelha que não pode ser ultrapassada nas relações entre a China e os Estados Unidos", declarou o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da gigante asiática, Lin Jian.
Os novos trunfos de Pequim
No entanto, Taiwan não é, de forma alguma, a única ferramenta de pressão de que a China dispõe.
Pouco antes da visita de Trump, as autoridades chinesas ativaram pela primeira vez um mecanismo que, na prática, impede a aplicação das sanções americanas contra cinco empresas chinesas acusadas por Washington de comercializar petróleo iraniano.
A redação do documento é bastante firme e baseia-se em três negações inequívocas que regem a forma como as entidades chinesas devem tratar as sanções americanas: "não reconhecer", "não aplicar" e "não cumprir".
Tanto o instrumento em si quanto o momento de sua aplicação revestem-se de especial importância.
A base jurídica para essa decisão já havia sido estabelecida em 2021, quando a China adotou normas para contrariar a aplicação extraterritorial de leis estrangeiras.
Durante cinco anos, esse mecanismo não foi utilizado, mas agora que a medida está em vigor, a lei, parafraseando Trump, não é mais um "tigre de papel".
A principal novidade reside no fato de que as empresas chinesas passam a ter o direito de entrar com ações nos tribunais nacionais contra entidades estrangeiras que cumpram as sanções americanas e, portanto, lhes causem prejuízos.
Em outras palavras, se um banco, uma seguradora ou uma operadora se recusar a trabalhar com refinarias chinesas sancionadas, corre o risco de enfrentar ações judiciais na China.
O momento escolhido é igualmente importante. A decisão foi tomada logo antes da visita de Trump, o que, segundo a Fortune, pode ser considerado uma espécie de "tapete de boas-vindas" para o presidente americano.
A carta das terras raras
Uma ferramenta adicional de pressão continuam sendo as terras raras, um setor onde a China ainda ocupa uma posição de liderança.
Segundo dados da Bloomberg, cerca de 4% do PIB dos EUA — aproximadamente 1,2 trilhão de dólares — corresponde a setores que dependem diretamente desses recursos.
Embora seja possível que algumas indústrias americanas consigam contornar qualquer interrupção no abastecimento, a maioria não conta com bons substitutos e algumas teriam que fechar se o abastecimento fosse interrompido.
"Lembremo-nos de que os EUA já sofreram um duro revés da China quando tentaram impor o 'aumento de tarifas' a Pequim no ano passado. Após um impasse de aumentos tarifários, a China apertou o 'botão nuclear' e restringiu a exportação para os EUA de oito elementos de terras raras chinesas, algo que significaria um golpe fatal para a indústria de alta tecnologia nos EUA, sobretudo no setor militar", indica Fernandes, acrescentando que as exportações da China se diversificaram ainda mais e continuam crescendo, enquanto os cidadãos americanos continuam pagando mais caro pelos produtos chineses.
Chegarão a algum acordo?
Stanislav Tkachenko, doutor em Ciências Econômicas e professor da Universidade Estadual de São Petersburgo, declarou à RT que as duas partes chegam às negociações com posições relativamente equilibradas. No entanto, no curto prazo, Washington encontra-se claramente enfraquecido.
"No curto prazo, os EUA encontram-se claramente enfraquecidos pela situação de crise no Golfo Pérsico, pela quase total ausência de aliados e pela falta de disposição do mundo em aceitar o uso em grande escala e extralegal da violência (coação) nas relações internacionais. A China, em comparação, parece mais sólida; seus apelos à paz e ao desbloqueio do Estreito de Ormuz, combinados com sua capacidade única de fazer passar seus petroleiros mesmo sob bloqueio, mostram a China como líder tático às vésperas da cúpula", afirmou o especialista.
Segundo Tkachenko, Trump tentará mostrar que os EUA "enfrentaram dificuldades temporárias na arena internacional" das quais poderão se recuperar, mas os problemas-chave continuarão sem solução.
"Acredito que as questões-chave da economia mundial (o uso de sanções ilegais por parte dos EUA e a pirataria 'de facto' nas rotas marítimas) continuarão sem solução. Donald Trump tentará manter o atual regime comercial, no qual os produtos chineses estão sujeitos a altas tarifas no mercado americano, mas ainda assim aceitáveis para as empresas chinesas", observou.
Tkachenko considera que a principal incógnita da cúpula é se os líderes de ambos os países conseguirão resolver a crise no Golfo Pérsico "sem que Washington perca prestígio" e sem um confronto militar direto, "no âmbito da garantia (ou da violação) do princípio da liberdade de navegação".
"Não me atrevo a fazer conjecturas a esse respeito; o mistério permanecerá até o último momento das negociações. As partes tentarão, sem dúvida, evitar uma escalada. No entanto, conseguir uma distensão entre elas é uma tarefa praticamente impossível na situação atual", concluiu.





