O ex-diretor da CIA William Burns afirmou que a guerra iniciada por Donald Trump contra o Irã revelou falhas estratégicas e trouxe lições essenciais para a política externa dos Estados Unidos. A avaliação foi publicada pelo jornal americano The New York Times na sexta-feira (24).
Diplomata de carreira que liderou a agência de inteligência entre março de 2021 e janeiro de 2025, Burns criticou duramente a estratégia adotada pelo presidente dos EUA.
Ele afirma que a estratégia de Trump apostou em bombardeios e assassinatos sob a presunção de que provocariam uma mudança de regime, interpretando sucessos militares táticos como estratégia viável e tomando decisões baseadas em impulsos políticos, sem planejamento prévio.
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"Esses erros voluntários já causaram grande dano estratégico", afirmou Burns. Apesar disso, ele reconheceu que uma trégua e o potencial de retomada das negociações ainda abram espaço para limitar prejuízos.
Para isso, listou três lições essenciais das últimas oito semanas de conflito.
Lição 1: Crises exigem tempo e paciência
Burns avaliou que a campanha ignorou erros de governos anteriores e acrescentou novos. Para ele, o primeiro aprendizado é que crises complexas exigem tempo e paciência.
"O perfeito raramente está disponível na diplomacia", afirmou, destacando que eliminar lideranças pode parecer solução rápida, mas tende a ser ilusório.
Como comparação, citou a estratégia de Barack Obama, baseada em negociações diretas para conter o avanço nuclear iraniano. Segundo Burns, Obama — assim como George W. Bush — avaliou que os riscos de uma guerra superavam seus benefícios.
Trump, de acordo com o ex-diretor, incitado pelo sucesso autodeclarado na Guerra dos Doze Dias em junho de 2025 e na operação na Venezuela em 3 de janeiro, fez uma escolha tragicamente distinta. "Não há como refazer as coisas na arte da diplomacia", ressaltou.
Contudo, ele afirmou que ainda existe uma possibilidade remota de enfrentar os perigos mais agudos que o Irã representa, desde que o governo Trump consiga priorizar, focar e superar seu vício por soluções rápidas.
Lição 2: Força sem diplomacia é insuficiente
O ex-diretor destacou que o uso isolado da força não resolve conflitos duradouros, sendo essencial mobilizar todos os instrumentos de segurança nacional. "A força por si só raramente dá resultados", afirmou. Segundo ele, a política externa exige integração entre poder militar, econômico e diplomático.
Burns ressaltou que negociações envolvem concessões mútuas e processos prolongados. Um acordo com o Irã, por exemplo, exigiria inspeções nucleares rigorosas, restrições ao enriquecimento de urânio e alívio de sanções.
Também citou o Estreito de Ormuz como ponto central, defendendo um acordo internacional para garantir a livre navegação sem ampliar o controle iraniano sobre a rota.
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"A menos que as linhas sejam claramente traçadas e estritamente monitoradas, os iranianos pintarão fora delas. Não podemos nos dar ao luxo de improvisar", alertou.
Lição 3: Ações sem estratégia ampliam problemas
Burns, finalmente, criticou operações militares sem plano de longo prazo, comparando a estratégia a "cortar a grama" — a partir da ideia conter ameaças imediatas sem resolver o problema, em verdade semeando o campo com novos pontos de vulnerabilidade.
"O regime iraniano está enfraquecido, mas intacto; mais fraco em muitos aspectos, porém ainda mais agressivo e com posições mais duras", avaliou. O ex-diretor indica que a campanha militar dos EUA tornou o Estreito de Ormuz um ativo ainda mais relevante para as autoridades iranianas, ampliando sua influência global.
Simultaneamente, os EUA também provocaram a perda de confiança entre aliados no Golfo Pérsico, Europa e Indo-Pacífico. Também apontou efeitos indiretos, como ganhos estratégicos a rivais do governo americano, como a Rússia e a China.
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Assim, o impacto da guerra de escolha de Trump ainda será sentido em desafios de longo prazo na economia global, com impacto significativamente defasado mesmo se o cessar-fogo perdurar.
"Não precisávamos cavar o buraco tão fundo", concluiu Burns. "Felizmente, ainda há tempo para largar a pá, aprender algumas lições difíceis e aplicá-las com um pouco mais de humildade."