Comunicações diplomáticas detalham rotina da Embaixada do Brasil durante conflito no Irã

Mensagens internas relatam abalos no prédio, dificuldades para pagamentos e plano de retirada de brasileiros por fronteiras terrestres.

Telegramas diplomáticos obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação pelo portal Metrópoles mostram como o conflito no Irã afetou diretamente a Embaixada do Brasil em Teerã.

As comunicações enviadas ao Itamaraty registram explosões na capital iraniana, impactos administrativos no funcionamento do posto e medidas preparadas para eventual retirada de brasileiros do país.

Antes do início dos ataques, os informes da embaixada tratavam de negociações indiretas entre Irã e Estados Unidos sobre o programa nuclear iraniano.

Em mensagem de 27 de fevereiro, o embaixador André Veras Guimarães relatou a terceira rodada de conversas entre as partes e mencionou declarações do chanceler iraniano Abbas Araghchi, que classificou o diálogo como "muito mais sérias" e com maior "consenso".

No dia seguinte, o cenário mudou com bombardeios em Teerã. Em telegrama de 28 de fevereiro, o diplomata informou que foram ouvidas explosões em diferentes áreas da capital e que dezenas de alvos teriam sido atingidos, entre eles instalações ligadas ao Ministério da Inteligência iraniano e ao Escritório do Líder Supremo.

Em outra comunicação, a embaixada informou que cidades como Bandar Abbas, Kermanshah, Qom e Isfahan também foram alvo de ataques. Segundo o relato, o Irã iniciou ações retaliatórias contra alvos militares dos Estados Unidos em países da região do Golfo Pérsico.

Uma das primeiras consequências para a missão brasileira ocorreu na área administrativa. Após a morte do aiatolá Ali Khamenei, autoridades iranianas decretaram sete dias de luto nacional, com fechamento de bancos e repartições públicas. Diante disso, a embaixada solicitou autorização para antecipar o pagamento de funcionários contratados localmente.

Em um dos trechos destacados, o posto informou que, sem medida emergencial, ficaria impossibilitado de pagar os salários dentro do prazo contratual. O documento acrescenta que os pagamentos poderiam ser feitos apenas na semana seguinte.

Outra mensagem relata que os ataques diários em Teerã dificultavam o deslocamento de funcionários ao banco para operações de câmbio necessárias ao pagamento dos salários.

Em 17 de março, novo telegrama descreveu bombardeios na região norte da capital iraniana, área onde residiam diplomatas estrangeiros. Segundo o documento, a residência ligada à Embaixada do Brasil sentiu os impactos das explosões.

"Os ataques no norte da cidade foram sentidos na residência. Todo o prédio tremeu com o deslocamento de ar causados pelas explosões. Na sala de jantar, as ondas de choque fizeram com que partes do estuque caíssem sobre a mesa do cômodo", dizia o documento. 

Apesar dos ataques, a representação relatou manutenção de atividades cotidianas em Teerã. Segundo o embaixador, mercados da capital continuavam abertos e a população realizava compras para o Ano Novo iraniano.

Em informe de 21 de março, a missão brasileira atualizou o governo sobre a situação de cidadãos brasileiros no Irã. O levantamento indicava 65 brasileiros ainda estavam no país, em sua maioria mulheres casadas com iranianos. Também havia diplomatas, jogadores e treinadores de futebol.

Outros 15 brasileiros já haviam deixado o território iraniano pela fronteira com a Turquia, segundo o documento.

A embaixada avaliou que não havia, até aquele momento, pressão para uma operação de evacuação, em razão do número reduzido de brasileiros e da situação descrita como de relativa estabilidade.

Mesmo assim, o posto informou ter realizado levantamento preliminar para contratar transporte rodoviário, como van ou ônibus, para eventual deslocamento de brasileiros de Teerã até as fronteiras com Turquia ou Armênia.

Em nota citada pelo portal Metrópoles, o Ministério das Relações Exteriores afirmou que a Embaixada do Brasil em Teerã continuou funcionando durante todo o período do conflito e que o corpo diplomático permaneceu no local cumprindo suas funções.