Engenharia reversa: como armamentos interceptados dos EUA se tornam vantagens táticas para o Irã

Sob décadas de sanções e embargos tecnológicos, o Irã se mantém atento à modernização das táticas de guerra e se aproveita dos momentos de exposição das capacidades de seus oponentes.

O porta-voz do Quartel-General Central do Khatam al-Anbiya, Ebrahim Zolfaghari, declarou no domingo (19) que partes de mísseis americanos interceptados foram recuperadas e serão encaminhadas a especialistas para realização de engenharia reversa.

A engenharia reversa é o processo de análise detalhada de um produto, dispositivo ou sistema para compreender sua arquitetura e funcionamento, geralmente sem acesso à documentação técnica original. 

A emissora iraniana IRIB revelou no domingo (19) que autoridades do país rotineiramente examinam artefatos americanos não detonados, destruindo de forma segura e controlada os componentes inutilizáveis.

Diferentes relatos da campanha militar americano-israelense contra o Irã identificam a exposição tecnológica como um dos vetores da estratégia de um conflito definido pela grande assimetria de força entre os envolvidos. Similarmente, um suposto sensor infravermelho de um sistema de defesa antimíssil THAAD dos EUA teria sido recuperado em estado preservado no início de abril, alertando especialistas para a possibilidade de uma grave perda para a inteligência americana.

Em dezembro de 2025, o jornal Tehran Times já sinalizava como as forças armadas iranianas realizaram engenharia reversa em equipamentos americanos capturados para agregar a seu arsenal doméstico. Os dispositivos incluiriam um drone Lockheed Martin RQ-170 apreendido em 2011, uma bomba antibunker GBU-57 que falhou nos ataques dos EUA na Guerra dos Doze Dias em junho de 2025 e, similarmente, uma bomba GBU-39 que não explodiu no ataque a Beirute que matou o comandante Ali Tabatabai do Hezbollah em novembro de 2025. O analista militar Robert Maillard, à mídia iraniana PressTV, ressaltou como a captura do RQ-170 abriu as portas para o desenvolvimento dos drones Shahed-191 e Shahed-129

Observação atenta

O jornal britânico Financial Times (FT) relatou ter analisado mais de 300 artigos publicados nos últimos cinco anos em uma dúzia de publicações de defesa iranianas. Segundo o jornal, esses textos oferecem uma visão dos debates internos sobre como as táticas estão evoluindo e quais tecnologias estão sendo priorizadas, abrindo outra janela aos arranjos de um país levado à criatividade e autonomia sob décadas de sanções e embargos tecnológicos.

De acordo com o FT, esses artigos indicam que o Irã tem se concentrado na modernização de suas capacidades de guerra cibernética e, ademais, estudou os aspectos tecnológicos do conflito ucraniano para extrair ensinamentos estratégicos, especialmente em relação a drones.

"Foi um dos casos que examinamos cuidadosamente", declarou o comandante iraniano Hossein Dadvand, em uma entrevista de 2025 citada na reportagem, indicando sua atenção ao "uso generalizado de pequenos drones e inteligência artificial."

"Estamos testemunhando a entrada de tecnologias avançadas como inteligência artificial, computação quântica e nanotecnologia na arena militar", avaliou Dadvand.