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UE faz 'campanha de difamação' contra produtos do Brasil e Mercosul, diz embaixador

Pedro Miguel da Costa e Silva afirmou que o acordo comercial virou bode expiatório de disputas políticas na Europa.
UE faz 'campanha de difamação' contra produtos do Brasil e Mercosul, diz embaixadorReprodução/Divulgação Ministério das Relações Exteriores

O embaixador do Brasil junto à União Europeia, Pedro Miguel da Costa e Silva, afirmou que os países do Mercosul enfrentam uma "campanha de difamação" contra a qualidade de suas exportações agroalimentares e que o acordo comercial com a União Europeia tornou-se um "bode expiatório" político. A entrevista foi concedida ao Euractiv na segunda-feira (2).

"É muito lamentável e muito preocupante, porque, no final, é uma campanha permanente de difamação dos nossos produtos e dos nossos produtores", afirmou Silva.

O acordo entre União Europeia e Mercosul foi assinado em janeiro, no Paraguai, após mais de 25 anos de negociações. O pacto cria uma potencial área de livre comércio entre os dois blocos, que juntos somam cerca de 700 milhões de consumidores. No entanto, parlamentares europeus e setores agrícolas continuam resistindo ao tratado, alegando prejuízos à agricultura do continente.

A recente decisão do Parlamento Europeu de submeter o acordo à análise da Corte de Justiça da UE atrasará ainda mais o processo de ratificação. Para Silva, embora os países do Mercosul respeitem a decisão, a medida é frustrante. "É direito dos eurodeputados fazer essa consulta, mas estamos decepcionados porque as perguntas têm respostas claras", disse.

Enquanto isso, o Brasil está acelerando seu processo interno de aprovação. A expectativa, segundo o embaixador, é que a votação na Câmara dos Deputados ocorra antes do recesso de Carnaval, em meados de fevereiro, para que o acordo seja posteriormente analisado pelo Senado.

"Estamos acelerando ao máximo... há um mandato do presidente para ir rápido e há sinais claros, tanto da nossa Câmara dos Deputados quanto do Senado, de que vão se mover rapidamente na avaliação do acordo", afirmou.

Mesmo com uma eventual implementação provisória — que poderia ocorrer após a ratificação por ao menos um país do Mercosul — o Parlamento Europeu ainda terá de se pronunciar após a decisão da Corte. Para Silva, o debate na Europa perdeu a conexão com os fatos.

"O acordo, infelizmente, virou um tema de política interna e um bode expiatório para muitos", afirmou, dizendo que o tratado está sendo usado como pretexto para outras agendas.

O embaixador defendeu a agricultura brasileira e ressaltou que o acordo não prevê liberalização total das exportações de carne bovina e de frango do Mercosul, apenas cotas adicionais limitadas, o que, segundo ele, reduz o impacto sobre os agricultores europeus.

Silva destacou ainda que a maior parte das exportações do Mercosul para a União Europeia são produtos dos quais o bloco europeu depende, como soja e café. "Espero que setores que se beneficiam deste acordo na Europa, como indústria e serviços, se manifestem mais a favor... e que os setores agroalimentares europeus que serão beneficiados também o defendam mais ativamente", declarou.

Ele lembrou que o Mercosul também fez concessões importantes, como a abertura do mercado sul-americano para vinhos europeus com tarifa zero.

Sobre as críticas de que as importações do Mercosul não estariam alinhadas com os padrões de segurança alimentar da UE, o diplomata rebateu afirmando que o Brasil já é um dos principais fornecedores agroalimentares do bloco europeu — atrás apenas do Reino Unido — e, portanto, já cumpre as exigências normativas europeias.

"Já cumprimos, temos que enfrentar todos os controles que a União Europeia impõe a todos os nossos produtos, e alguns deles já passam por controles reforçados, como a carne bovina e o frango", afirmou.

Segundo ele, esses controles europeus estão entre os mais rígidos do mundo, comparáveis aos do Japão e do Chile. "Se fizermos algo errado, o mercado se fecha", concluiu o embaixador.

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