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Nazca: perdendo a linha?

O Peru abriga em Nazca um dos conjuntos de geoglifos mais importantes do mundo, cujos traços enigmáticos ainda atraem a atenção científica. No entanto, o acúmulo de lixo, o crescimento urbano e a mineração ilegal colocam em risco o entorno arqueológico — uma situação que afeta diretamente os moradores locais, que exigem vigilância e proteção governamental. Será que o Estado conseguirá salvar esse tesouro milenar antes que os vestígios do passado desapareçam para sempre?

O deserto de Ica, no Peru, guarda um dos maiores enigmas arqueológicos da América Latina: as Linhas de Nazca, geoglifos pré-colombianos que se estendem por milhares de quilômetros quadrados e representam animais, plantas e figuras humanas.

Reconhecidas pela Unesco como Patrimônio da Humanidade, essas figuras só puderam ser compreendidas em sua totalidade graças ao trabalho da matemática alemã Maria Reiche, que dedicou a vida a estudá-las e provou que não se tratavam de desenhos isolados, mas de parte de um sistema ligado à civilização Nazca — sociedade político-religiosa cujo centro cerimonial, Cahuachi, é o maior complexo de adobe já identificado no mundo.

Apesar do título internacional, esse patrimônio enfrenta hoje três frentes de ameaça simultâneas que colocam em risco sua própria sobrevivência.

A mineração ilegal

A principal ameaça vem do garimpo ilegal. A advogada Noemí Castañeda, que atua na defesa dos geoglifos, contabiliza mais de 130 operações de mineração ilegal em funcionamento na região e aponta irregularidades envolvendo servidores públicos locais e do próprio Ministério da Cultura. Embora o governo peruano tenha revertido, em 2025, uma redução de 40% no território da reserva, Castañeda insiste que o dano provocado já seria irreversível.

O outro lado do debate, porém, resiste à ideia de restrição. Mineradores artesanais, como Roberto Vera Huarcaya, argumentam que a ampliação da área intangível trava o desenvolvimento econômico de Nazca, ao inviabilizar obras como hospitais e aeroportos.

Saques e descaso cotidiano

Enquanto o conflito em torno da mineração se arrasta, o sítio de Cahuachi e suas áreas funerárias seguem sendo alvo de saqueadores em busca de peças de ouro, deixando cenas de destruição pelo caminho. O guia local Leonardo Rojas lembra que apenas cerca de 10% do complexo já foi escavado, e cobra mais investimento estatal antes que o restante se perca.

Os moradores relatam um problema mais banal, porém igualmente grave: lixões e carcaças de animais descartados entre os próprios geoglifos — cena que descrevem como uma "vergonha alheia".

Urbanização e o risco de perda definitiva

Por trás desses episódios pontuais, lideranças comunitárias como Zenón Gallego Ramírez enxergam um problema estrutural: o avanço da urbanização sobre a área, somado à omissão das autoridades, ameaça apagar de forma definitiva um patrimônio que a própria ciência ainda não terminou de decifrar.

Para eles, o destino das Linhas de Nazca — mineração, saque ou simples abandono à parte — depende, no fim, de uma única condição: que a região seja de fato transformada em território protegido, e não apenas nominalmente reconhecida como tal.