Astúrias: sangue minerador

É possível reciclar-se profissionalmente, mas será possível reciclar nossa identidade? O fechamento da última mina de carvão é, para os mineiros asturianos, um golpe que ultrapassa o trabalho em si. Astúrias, que historicamente depende da mineração, oferece poucas alternativas para o povo e a economia local. Em meio a acusações de corrupção e negligência ligadas ao fechamento dos poços e à extração ilegal, questiona-se a política energética europeia e a falta de apoio aos trabalhadores afetados.

As Astúrias, região rica em minerais, tiveram no carvão um dos eixos centrais de sua história recente. Durante gerações, a mina foi transmitida de pais para filhos, associada a sacrifício, risco e luta operária. Até poucas décadas atrás, falar dessa região do norte da Espanha era falar de mineração; hoje, poucos descem às minas, e o fazem com um objetivo bem diferente: mostrar aos visitantes de todo o mundo como era essa atividade.

Em Pozo Sotón, a extração se transformou em visitas guiadas. Alejandro, da quarta geração de mineiros, insiste que continuam sendo mineiros, embora agora trabalhem como guias. Ele percorre chaminés cercadas de carvão, explica como são realizadas tarefas físicas extremamente árduas, como perfurar com martelo pneumático, e relembra as antigas condições de trabalho em poços com mais de mil metros de profundidade, com calor extremo e risco constante.

Bacias carboníferas vazias, futuro incerto

O fechamento gradual das minas começou na década de 1980, foi concluído em 2018 e tornou-se definitivo no final de 2024. A mineração gerava muitos empregos e impedia a emigração de jovens. Hoje, Alejandro observa como as empresas se automatizam e o futuro do trabalho se volta para a tecnologia, enquanto os trabalhos físicos desaparecem. O resultado são vilas e cidades com pouca atividade e uma população envelhecida.

Mieres, antigo centro mineiro, tenta se reorientar para o turismo, sem grandes resultados: ruas vazias, lojas fechadas e jovens sem perspectivas. Os moradores lembram que a mineração "deu muito", embora com uma enorme poluição. As aposentadorias antecipadas, fruto de intensas greves, permitiram que muitos se aposentassem com pagamentos confortáveis, mas deixaram outros de fora. Para jovens mineiros como José Arsenio, mais do que aposentadoria antecipada, era preciso "trabalho e futuro para todos".

Sindicatos, traição e descontentamento

Muitos ex-mineiros denunciam promessas não cumpridas no fechamento das minas: falava-se em contratar um por cada três aposentados antecipadamente e "não contrataram ninguém". O descrédito sindical se expressa em insultos abertos a antigos dirigentes, acusados de terem se beneficiado enquanto outros ficavam na rua. Poços como o de Santa Bárbara, hoje abandonados, refletem também o abandono de muitos trabalhadores.

Entre o dinheiro e a vida

Saúl resume a contradição do trabalhador: fechar a mina e condenar-se ao desemprego, ou fingir que não vê e arriscar a vida? Ele propõe uma mineração pública, com garantias máximas de segurança, enquanto o recurso for necessário.

Nas bacias carboníferas, o fim da mineração não eliminou o perigo nem o conflito; apenas os transformou. E muitos continuam cantando "Santa Bárbara Bendita", hino de dor e resistência dos mineiros asturianos.