Lucía Topolansky: Tudo o que surgiu após a Segunda Guerra Mundial para construir um mundo em paz colapsou

Lucía Topolansky, ex-vice-presidenta do Uruguai e viúva do ex-presidente José "Pepe" Mujica, comenta as mudanças na geopolítica atual. Em "Conversando con Correa", afirma que tudo o que surgiu após a Segunda Guerra Mundial para consolidar um mundo em paz com normas e valores foi pelos ares, e que não há regras do jogo. Assim, criam-se organismos com chefes autonomeados que tentam substituir a ONU, enquanto as pessoas se acostumam a que os conflitos e as guerras sejam cada vez mais frequentes.

Em um diálogo íntimo e reflexivo, a ex-vice‑presidente do Uruguai (2017‑2020) Lucía Topolansky revisita mais de cinco décadas de compromisso político, desde sua precoce militância social até a experiência da prisão e o posterior triunfo eleitoral da coalizão política Frente Ampla (Frente Amplio, originalmente em espanhol). Transitando pela memória pessoal, pela análise do poder e por uma preocupação urgente com o rumo atual da região e do mundo.

Topolansky descreve como sua consciência política despertou aos 14 anos, através do trabalho social nos bairros informais de Montevidéu. Esse contato com a desigualdade marcou o início de um caminho que logo se radicalizaria. Sua entrada na universidade e a fervor continental dos anos 60 e 70 —com a Revolução Cubana, a guerra do Vietnã e os golpes de Estado no Brasil e no Cone Sul— a levaram, como muitos jovens de sua geração, a discutir o caminho para a mudança.

"Na América Latina de todas as partes estava a mesma discussão", explica. "Existiam duas posturas, a via eleitoral e a via armada[…]. As duas surgiram no Uruguai e as duas perdemos. A ditadura barrou tudo", lembra, salientando que entregaram "tudo pela causa".

A viúva do ex‑presidente José "Pepe" Mujica assegura que as circunstâncias que viveram não têm nenhuma relação com as do século XXI. Embora sejam "totalmente diferentes", considera que o "compromisso com a causa permanecerá sempre", referindo‑se à luta pela "igualdade de oportunidades" e à oportunidade de que as pessoas desfrutem dela "desde o nascimento".

"Os seres humanos se vão, mas as causas permanecem. E o importante é que as causas permanecem e tenham bandeirantes que as assumam."

Resistência e prisão

Topolansky escolheu a luta clandestina, uma decisão que a levaria a passar quase 13 anos na prisão durante a ditadura cívico‑militar uruguaia.

Ao evocar esses anos difíceis, faz uma distinção crucial: "Quem lutava sabia dos riscos e os assumia de forma consciente. Poderíamos morrer, poderíamos ser presos, poderíamos ter que ir ao exílio. Mas depois houve povos que, e sobretudo as crianças desaparecidas, foram as verdadeiras vítimas".

Seu relato sobre a prisão se entrelaça com o de seu esposo, o ex‑presidente Mujica, que sofreu condições de isolamento extremo. Ela comenta que Pepe sempre dizia que, se não tivesse vivido aquilo, "não seria assim". Segundo ela, essa experiência extrema permitiu que seu esposo "eliminasse o ódio de sua vida". Essa filosofia, afirma, foi fundamental para a reintegração política na democracia.

"Ele dizia que amor e ódio são cegos, com a diferença de que o amor cria, e o ódio destrói. E no meu jardim eu não cultivo o ódio."

Da clandestinidade ao governo

Com o retorno à democracia, Topolansky e seus camaradas enfrentaram um país e um mundo transformados. "O primeiro que fizemos foi tentar entender o que estava acontecendo, porque havia tido todos esses anos de ausência da realidade", aponta.

A estratégia foi simples e profundamente uruguaia: sair à rua para conversar com a "pessoa comum". Inventaram o que chamavam de "mateadas", encontros em praças e esquinas para tomar e compartilhar a tradicional infusão de erva‑mate para dialogar de forma igualitária entre si.

"O político é um idealista, é como [Dom] Quixote, mas Quixote sempre via Sancho ao lado, que é o filtro à terra. E isso são as pessoas."

Esse trabalho de base, lento e persistente, culminou na histórica vitória da Frente Ampla em 2005, que pôs fim a mais de 150 anos de alternância entre os partidos tradicionais. "Apesar de terem modificado a lei eleitoral… para nos colocar um freno, ganhou na primeira volta", destaca com orgulho.

América Latina e um mundo em mudança

Ao comparar o Uruguai da juventude com o atual, Topolansky pinta um panorama de incertezas. Relembra a "época de ouro" do Uruguai (2002‑2014) com nostalgia, um período de crescimento, redução da desigualdade e sonhos de integração.

Ela nota que hoje há uma mudança de eixo global. "Foi dado um enorme empurrão às regras do jogo", afirma, referindo‑se ao enfraquecimento do direito internacional e de organismos multilaterais como a ONU.

"Tudo que surgiu a partir da Segunda Guerra [Mundial] para poder construir um certo mundo em paz, uma paz relativa, com certas normas; com certas normas de comércio, de intercâmbio, com certa civilização. Tudo isso desapareceu."

"Estamos em um mundo que tem mais perguntas que respostas. A incerteza é quase cotidiana", analisa. Ela faz destaque para a polarização —"ou você está comigo ou contra mim"—, a naturalização da guerra nas telas, com a população se acostumando "de que milhares morram, e é tudo", e a ascensão de um discurso baseado puramente em força. Para países pequenos, dependentes do multilateralismo, esse cenário é particularmente desafiador.

Entretanto, observa sinais de resistência mesmo dentro das potências, citando as protestos em Minnesota (EUA), após a morte de George Floyd, como um exemplo de que "a guerra também está dentro dos Estados Unidos". Coincide com Correa em que um freno aos abusos globais poderia vir das "reservas morais e intelectuais" dentro dos próprios países centrais, embora lamenta o papel "anulado" e "debilitado" da Europa como "contrapeso da realidade".

Ao ser questionada por uma mensagem para os jovens, Topolansky recorre à herança de Pepe Mujica. Convida a olhar o tanque de água pintado com seu rosto em sua humilde casa nos subúrbios de Montevidéu, onde repousam suas cinzas. Abaixo, uma frase resume seu legado: "O impossível custa um pouco mais". "Esse é o mensagem que eu lhes dou", finalizou.