Em meio à disputa com a China e as tentativas de deter seu relativo declínio de poder, os Estados Unidos reposicionaram a região da América Latina como uma de suas prioridades estratégicas. Para aumentar sua influência no hemisfério, os meios escolhidos têm sido pressões, interferências em processos eleitorais e agressões diretas, como é o caso do sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro.
Evidentemente, o Brasil não está imune aos métodos utilizados até agora pelo governo Donald Trump. A classificação do Comando Vermelho e do PCC como organizações terroristas busca pressionar o governo Lula, que nos últimos meses tem tentado se equilibrar entre um discurso assertivo sobre a soberania brasileira e negociações diplomáticas que envolvem conversas diretas entre o presidente brasileiro e Donald Trump.
A posição estratégica do Brasil
Na atual quadra histórica, o interesse dos Estados Unidos no Brasil é de fácil compreensão. Possuímos a segunda maior reserva de terras raras do mundo, minerais essenciais para a fabricação de semicondutores, baterias, sistemas de inteligência artificial, equipamentos militares e tecnologias de comunicação. Com uma imensa reserva inexplorada, o Brasil se transformou em um ator chave para que os Estados Unidos reduzam sua dependência do fornecimento chinês para abastecer, especialmente, as cadeias produtivas de seu complexo militar-industrial.
Ao mesmo tempo, o Brasil mantém uma relação econômica cada vez mais importante com a China, hoje seu principal parceiro comercial. Para Washington, a consolidação dessa parceria representa um desafio geopolítico de primeira ordem, uma vez que, para além das questões comerciais, Brasil e China caminham lado a lado em arranjos multilaterais que buscam construir uma alternativa às instituições de governança ocidentais, como o BRICS e o Novo Banco de Desenvolvimento.
Há ainda a dimensão regional. O Brasil é a principal potência da América do Sul, com peso econômico, territorial, populacional e diplomático superior aos demais países da região. Em um passado não muito distante, essas características foram de extrema importância para alavancar iniciativas como a Unasul, Celac e a ampliação do Mercosul. Projetos de integração na América do Sul nunca foram um interesse dos Estados Unidos, uma vez que uma região integrada e dotada de maior coesão estratégica teria capacidade de responder em conjunto aos desafios e ameaças do exercício de poder norte-americano, além de estabelecer relações internacionais relativamente autônomas em relação aos interesses dos Estados Unidos.
Primeiras interferências nas eleições brasileiras
O anúncio da classificação das facções foi feito pelo secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, um dia após Flávio Bolsonaro regressar de um encontro com Donald Trump. O momento escolhido não é mero acaso e marcou a primeira interferência dos Estados Unidos nas eleições desse ano, uma vez que a medida ajuda a colocar a segurança pública no centro do debate político, uma pauta insistentemente explorada pela extrema-direita brasileira, e tira os holofotes de um tema muito menos conveniente para Flávio Bolsonaro: as revelações envolvendo sua relação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro no caso Banco Master.
Dias após a classificação, o governo de Donald Trump anunciou novas tarifas sobre os produtos brasileiros com base na Lei de Comércio dos Estados Unidos, de 1974. Uma das justificativas para as novas taxas é o Pix, meio de pagamento altamente popular no Brasil. Ceder à pressão dos Estados Unidos e alterar a política do Pix pode significar não somente um tiro no pé do governo Lula, mas um verdadeiro suicídio eleitoral para a candidatura do Partido dos Trabalhadores.
Para além das eleições
Mas a questão não deve ser reduzida à disputa eleitoral brasileira e o problema tampouco deve se encerrar com a provável vitória de Lula. Ao enquadrar o Comando Vermelho e o PCC na legislação antiterrorismo norte-americana, Washington ampliou sua capacidade de pressão sobre o Brasil por um período que ultrapassa as eleições de outubro. O suposto combate ao crime organizado passa a oferecer justificativas para o fortalecimento de mecanismos de monitoramento, compartilhamento de inteligência, sanções, operações militares e outras formas de ingerência.
Além disso, a classificação deve ser analisada no contexto dos objetivos estratégicos que orientam a atuação dos Estados Unidos na América Latina e que estão expressos no documento de Estratégia de Segurança Nacional (National Security Strategy, NSS) lançado em novembro do ano passado. Nele, estão definidas as prioridades políticas, econômicas, diplomáticas e militares de Washington para a manutenção de sua hegemonia no sistema internacional.
O documento identifica a China como o principal desafio estratégico aos interesses dos Estados Unidos, em uma disputa que envolve cadeias produtivas, tecnologia, recursos naturais, infraestrutura, energia, inteligência artificial e controle de mercados. A preocupação central de Washington é impedir que Pequim consolide áreas de influência capazes de reduzir o poder econômico e político norte-americano.
É nesse contexto que a América Latina volta a assumir importância estratégica. A região concentra recursos naturais fundamentais para a transição tecnológica em curso, abriga mercados relevantes e se tornou um espaço de crescente presença econômica chinesa.
Ainda de acordo com o documento, os países latino-americanos devem estar dispostos a colaborar com os Estados Unidos para combater o que se qualifica como ameaças à segurança nacional, como o tráfico internacional de drogas, a lavagem de dinheiro e fluxos migratórios ilegais.
Sob muitos aspectos, trata-se da atualização de uma lógica histórica da política externa norte-americana. Há alternâncias, a depender do momento histórico, sobre o que deve ser combatido para além do território dos Estados Unidos: comunismo, tráfico de drogas, terrorismo islâmico, regimes autoritários etc. No entanto, violações ao Direito Internacional e, portanto, violações à soberania de Estados estrangeiros e à autodeterminação dos povos, nunca significaram a resolução de quaisquer desses problemas. Muito pelo contrário, as políticas de pressão política, econômica, financeira e militar dos Estados Unidos, na maioria esmagadora dos casos, foram responsáveis por multiplicá-los e não eliminá-los.
Nesse sentido, através de discursos falseados, o objetivo segue o mesmo ao longo de décadas: preservar a posição dominante dos Estados Unidos no sistema internacional e impedir o surgimento de espaços políticos e econômicos autônomos.
Os acontecimentos recentes na região latino-americana ajudam a compreender essa dinâmica. A abertura de um escritório do FBI e a presença de militares dos Estados Unidos no Equador, a aprovação para a instalação de uma base militar permanente no Paraguai, o apoio a candidatos de extrema-direita em Honduras, Peru e Colômbia, a relação de tutela com o governo de Delcy Rodríguez na Venezuela e o endurecimento do embargo contra Cuba são exemplos de como os Estados Unidos reorientaram sua estratégia para a região e apostam em instrumentos de pressão e ingerência em detrimento de meios diplomáticos básicos.
O Brasil ocupa uma posição altamente estratégica e já está sob interferência dos Estados Unidos, ainda que, neste momento, os instrumentos utilizados apareçam travestidos de meras preocupações com a segurança pública, o comércio internacional ou o combate ao crime organizado por parte do governo de Donald Trump. Suas reservas minerais, a relação com a China, a dimensão continental e sua influência regional o transformam em um ator central na disputa pela configuração futura da América Latina e nas ambições do imperialismo norte- americano.