
Virada inesperada: 'fadiga' da IA reacende o interesse pelo que é humano e 'analógico'

O fenômeno da inteligência artificial (IA) tem demonstrado resultados positivos em diversas áreas, como agilidade, produtividade e até mesmo como símbolo do avanço científico e tecnológico.
No entanto, seu desenvolvimento e sua utilização também levantam muitas dúvidas e inseguranças, pois, mesmo em plena expansão, a tecnologia já demonstrou que não é infalível e pode cometer erros graves.
O uso massivo da IA, que tem contribuído para aumentar a eficiência de empresas em escala global, também evidenciou que sua aplicação pode colocar em risco a privacidade das pessoas e a segurança de instituições e até de países.

Além disso, seu desenvolvimento vem acompanhado de uma percepção cada vez mais disseminada de falsidade e de produtos vazios ou "sem alma", o que representa uma ameaça à confiança e à credibilidade.
A fadiga da IA e a perda de confiança
Uma pesquisa global realizada pela The Harris Poll e pela empresa Quad, divulgada com exclusividade pelo Marketing Brew, revelou que o conteúdo sintético saturou a internet a ponto de provocar "sufocamento" e "fadiga".
O levantamento mostrou que "os consumidores estão cansados de ouvir falar de IA o tempo todo".
De acordo com a pesquisa, mais de dois terços dos consumidores em todo o mundo afirmam que o conteúdo gerado por IA destruiu a confiança naquilo que veem na internet.
Como consequência, essa desconfiança provoca uma espécie de fadiga visual e cognitiva, que agora leva as marcas a reduzir o uso desenfreado da ferramenta e a voltar a valorizar o trabalho humano e os formatos físicos como sinais de qualidade e exclusividade.
O estudo acrescenta que os consumidores consideram que a IA deveria ser usada principalmente como uma "estratégia de marketing".
Além disso, 78% dos entrevistados acreditam que a IA faz os anúncios "parecerem menos autênticos" e, na mesma proporção, consideram "constrangedor" quando as marcas abusam da ferramenta em suas campanhas publicitárias ou estratégias de mercado.
Uma reportagem publicada pela Forbes aponta que, nos últimos dois anos, "os profissionais de marketing têm usado a IA generativa para produzir mais conteúdo, de forma mais rápida e barata".
Essa prática não passou despercebida pelos consumidores, cujas respostas aparecem em dados concretos, como os apresentados na pesquisa mencionada: 75% dos americanos consideram que boa parte do conteúdo publicado pelas marcas "parece polido ou artificial demais".
O risco do que é "falso"
A revalorização do trabalho humano e do que é feito à mão, provocada justamente pela IA, ocorre em um momento em que o avanço dessa tecnologia também desperta o temor de trabalhadores de perderem seus empregos e serem substituídos por máquinas.
Esse movimento trouxe para o debate público as estratégias publicitárias de grandes empresas globais, como Coca-Cola, Apple e Prada, entre outras.
A divisão provocada pela "fadiga da IA" revela um fenômeno cultural crescente, que já separa o mundo da publicidade em dois grupos bastante distintos.
De um lado, está a aposta na automação total: a Coca-Cola desencadeou uma intensa polêmica internacional ao lançar anúncios de Natal produzidos inteiramente com IA.
A decisão foi amplamente criticada nas redes sociais e nos meios de comunicação especializados, que consideraram as peças frias, artificiais e desprovidas da essência histórica da marca, tradicionalmente associada ao encontro familiar e ao toque humano.
Coca-Cola's annual Christmas commercial is AI-generated again The company used even fewer people to make it this year “We need to keep moving forward and pushing the envelope … The genie is out of the bottle, and you’re not going to put it back in" (via @THR) https://t.co/RvGi8Qzjk8
— Culture Crave 🍿 (@CultureCrave) November 3, 2025
A estratégia da gigante dos refrigerantes demonstrou que, embora a IA reduza drasticamente os custos de produção, também pode colocar em risco a identidade da marca ao padronizar sua estética e aproximá-la da de outras empresas do mercado.
Isso pode gerar um distanciamento do público e enfraquecer o sentimento de identificação com o produto.
Apple : Stop Motion for Mac mini M6🧑🍳 https://t.co/gF3m998aL4
— Hukam Design (@hukamdesign) August 26, 2026
Na direção oposta, a Apple decidiu apostar em uma estratégia alternativa, recorrendo ao outro extremo: promover suas novas campanhas com peças artesanais e técnicas analógicas, como a animação em stop motion, destaca o Marketing Brew.
Além disso, a marca da maçã também publica em suas redes sociais vídeos de bastidores, mostrando que suas produções contam com o trabalho humano de uma equipe de profissionais criativos.
Diante desse cenário, mostrar o esforço, os erros e o trabalho humano por trás das câmeras tornou-se uma das ferramentas de marketing mais poderosas para transmitir autenticidade ao produto final.
Algo semelhante acontece no setor de luxo, que também vem retomando práticas analógicas. Grifes como a Prada decidiram reforçar seu valor de mercado apostando no trabalho artesanal e em experiências presenciais que os algoritmos jamais poderão reproduzir.
Suas estratégias de marketing atuais deixam de lado os formatos digitais convencionais e priorizam campanhas presenciais e ações promocionais criativas, edições limitadas impressas em papel de alta qualidade e desfiles concebidos como obras de arte arquitetônicas efêmeras.
Para o setor de luxo, se uma mensagem ou um produto pode ser reproduzido por meio de um prompt — um comando dado à IA — por apenas um dólar, ele perde automaticamente seu valor aos olhos dos consumidores de alto poder aquisitivo.
Prada recupera la animación dibujada a mano para su anuncio de Navidad. Ha contado con un histórico animador de Disney para crear un universo fantástico que combina ilustraciones tradicionales e imágenes reales. || Más info 👉🏼 https://t.co/MvosBvVZSV
— Reason Why (@ReasonWhy) October 28, 2026
O analógico também movimenta o mercado
A saturação provocada pela IA tem levado as pessoas a buscar o que é tangível, real e capaz de proporcionar experiências sensoriais e humanas genuínas.
Nesse contexto, cresce o interesse dos consumidores por tecnologias antigas ou não digitais, vistas como uma forma de escapar da hiperconexão.
Alguns usuários, por exemplo, compram celulares básicos, destinados apenas a receber chamadas e enviar mensagens de texto, para se desconectar completamente.
Outros preferem fornecer o número do telefone fixo de casa apenas às pessoas de seu círculo de confiança.
Há também quem recorra às câmeras fotográficas analógicas para reviver ou experimentar a sensação de não saber imediatamente como ficou a foto tirada e de ter de esperar pelo processo de revelação.
O mesmo movimento pode ser observado no mercado musical, onde as vendas de discos de vinil e de toca-discos voltaram a crescer.
Na Europa, a imprensa Intereconomía informou, que as vendas de câmeras fotográficas analógicas registraram um aumento de 599% neste ano, impulsionadas pelas gerações mais jovens.
Não se trata apenas de um acesso de nostalgia, mas de uma reação ao chamado "AI Slop" — conteúdo de baixa qualidade gerado por algoritmos e disseminado em massa nas redes sociais.
Nesse movimento, a imperfeição dos grãos da fotografia analógica e a textura ganham mais valor do que a otimização matemática das telas.
A própria indústria musical, diante da produção massiva de músicas criadas por IA em poucos segundos, recuperou parte do impulso do mercado físico que havia deixado para trás ao migrar para plataformas digitais como Spotify, YouTube e outras.
Agora, as vendas de discos de vinil e de seus toca-discos fazem parte dessa retomada do mercado físico.
"No primeiro semestre deste ano, o faturamento desse formato físico cresceu 27,7% na Espanha, impulsionando o mercado físico global em 20,3%, até quase alcançar 21 milhões de euros, segundo os dados mais recentes da Promusicae. Não se trata de um boicote ao mundo digital ou à própria inteligência artificial, mas de uma mudança na forma de consumir: o consumidor utiliza os algoritmos para otimizar suas compras, mas escolhe cada vez mais produtos físicos para se desconectar", afirma a Intereconomía.
E o jornalismo e o mercado editorial?
No jornalismo, a IA é vista como mais uma ferramenta para agilizar processos, encontrar fontes e até gerar ideias.
No entanto, o uso dessa tecnologia na produção de notícias ainda levanta muitas questões, pois as informações geradas por esses aplicativos se baseiam em bancos de dados e conteúdos que podem estar contaminados, distorcidos ou manipulados.
A própria IA também pode reproduzir esses problemas, mas um jornalista não deve permitir que isso aconteça.
Por isso, a Associação de Imprensa de Madri, em sua revista Cuadernos de Periodistas, ressalta que, diante da IA, "a humanização do jornalismo" é fundamental para "fidelizar o público" e preservar a "ética" como valor essencial do rigoroso exercício da profissão.
Isso exige mais do que o compromisso individual com uma cobertura responsável, transparente e confiável: é preciso observar, anotar, ouvir, perguntar, questionar e verificar as informações que serão publicadas, como parte essencial da produção de conhecimento e do debate social.
O retorno do papel em meio à fadiga digital
Além do acesso à informação, também existe um mercado em expansão voltado à busca por conteúdos em formato físico.
Revistas exclusivas, publicações semanais especializadas, jornais e obras literárias fazem parte desse movimento de retorno ao contato humano com o papel, em meio ao pragmatismo da rapidez do mundo digital.
A imprensa Two Sides também destaca esse fenômeno ao observar que "cada vez mais pessoas desejam a tranquilidade e a experiência tátil proporcionadas pelo papel" em razão do "aumento da fadiga digital".
Isso faz com que um número crescente de consumidores busque uma conexão emocional e deixe de lado os dispositivos eletrônicos para optar por livros de bolso, jornais e cadernos, em busca de clareza, tranquilidade e, sobretudo, de uma pausa da luz azul das telas.





