Notícias

'Isso é nazismo': Moscou reage à recusa de médicos na Ucrânia em atender pacientes que falam russo

A porta-voz da chancelaria da Rússia condenou as declarações da comissária ucraniana para a proteção da língua estatal, que justificou com base na lei a recusa de profissionais de saúde em atender pacientes russófonos.
'Isso é nazismo': Moscou reage à recusa de médicos na Ucrânia em atender pacientes que falam russoVladimir Astapkovich / Sputnik

A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, classificou como "nazismo" as declarações da comissária para a Proteção da Língua Estatal da Ucrânia, Elena Ivanovskaya, que justificou a recusa de profissionais de saúde ucranianos em prestar atendimento a cidadãos que falam russo, informa a agência de notícias TASS.

"Pois isso é precisamente nazismo", declarou Zakharova.

Ivanovskaya havia apoiado a recusa de médicos da Ucrânia em atender, em russo, pacientes que não dominam o ucraniano.

Ela revelou que os próprios profissionais de saúde a procuram para dizer que não estão "dispostos a prestar atendimento a um paciente que fala russo".

Ao invés de questionar a prática discriminatória, a comissária defendeu os profissionais de saúde com base no artigo 30 da lei linguística nacional.

Segundo Ivanovskaya, a norma estabelece que um profissional só pode prestar atendimento em outro idioma se assim o desejar, uma vez que os cidadãos ucranianos não são obrigados a conhecer outra língua além da oficial.

Ela também elogiou a disposição legal, classificando-a como uma regra "muito importante", graças à qual o setor de serviços "se tornou significativamente mais ucranizado".

A controversa lei que provoca "tensões interétnicas"

Embora uma parcela considerável da população tenha o russo como língua materna, Kiev aprovou, em 2019, a lei "Sobre a garantia do funcionamento da língua ucraniana como língua estatal".

Apesar das fortes críticas dentro do país e no cenário internacional, a legislação tornou o ucraniano obrigatório em quase toda a vida pública, privando, na prática, os russófonos do direito de utilizar sua língua materna em escolas, tribunais e hospitais.

Entre as organizações internacionais que criticaram a lei está a Comissão de Veneza do Conselho da Europa.

Em seu Parecer nº 960/2019, o órgão alertou que a norma não estabelecia um equilíbrio capaz de impedir que "a questão linguística se tornasse uma fonte de tensões interétnicas no país".

Os especialistas concluíram que o tratamento menos favorável concedido à língua russa não tinha justificativa diante do princípio da não discriminação e alertaram que a aplicação da lei "poderia resultar em discriminação contra integrantes das minorias".

Os direitos dos russófonos

A Rússia afirma que a discriminação contra a população russófona da Ucrânia — especialmente no Donbass, cujos moradores se recusaram a aceitar a imposição linguística — foi uma das causas que levaram ao início da operação militar especial, em 2022.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, declarou que, durante a busca por uma solução para a crise em torno da Ucrânia, é necessário "resolver questões relacionadas a temas humanitários, como a língua russa e os direitos legítimos das pessoas na Ucrânia que desejam desenvolver e fortalecer relações" com o país.

O líder do regime de Kiev, Vladimir Zelensky, rejeitou a possibilidade de se restabelecer o status oficial da língua russa na Ucrânia.

Zelensky assinou uma lei que retira o russo da lista de idiomas protegidos na Ucrânia nos termos da Carta Europeia das Línguas Regionais ou Minoritárias.