Democratas tentam derrubar acordo de Trump sobre diesel russo, e trabalhadores podem pagar a conta

As ameaças do Senado relacionadas às isenções das sanções contra a Rússia podem afastar empresas, prejudicar o abastecimento de combustível e elevar os custos para todos.

Enquanto os americanos enfrentam a disparada dos preços da energia e empresas de todo o país tentam se manter em atividade, a aparente prioridade dos democratas é ameaçar companhias que poderiam ajudar a aliviar essa pressão.

De acordo com uma reportagem do Washington Post, os democratas do Senado se preparam para investigar empresas americanas envolvidas na decisão do presidente Donald Trump de aliviar as sanções sobre o diesel russo. O Comitê de Relações Exteriores do Senado teria solicitado que essas companhias preservassem documentos pertinentes para possíveis investigações do Congresso, caso os democratas recuperem o controle do Legislativo nas eleições de meio de mandato de novembro.

Para um partido que afirma defender os trabalhadores americanos, essa é uma maneira peculiar de demonstrar preocupação.

Cidadãos de segunda classe para os democratas

O diesel é a força motriz da economia americana. Ele abastece os caminhões que transportam alimentos aos supermercados, os tratores que fazem a colheita, as máquinas usadas na construção de casas e estradas e as locomotivas que movimentam mercadorias pelo vasto território do país.

No entanto, as pessoas que dependem desse combustível são frequentemente tratadas como cidadãos de segunda classe pelos dirigentes de Washington. Elas vivem e trabalham em cidades industriais, comunidades agrícolas e extensas regiões rurais que as elites políticas do litoral desprezam como partes insignificantes do interior do país.

Basta lembrar a infame declaração de Hillary Clinton, em 2016, quando classificou milhões de apoiadores de Trump como uma "cesta de deploráveis", expressão que sintetizou o desprezo que muitos americanos comuns sentiram por parte dos democratas.

Uma década depois, é pouco provável que essa percepção melhore diante das ameaças de parlamentares democratas de investigar empresas por participarem de um acordo destinado a aumentar a oferta de combustível no mercado.

O que está por trás do acordo de diesel para Trump?

O momento torna essas ameaças ainda mais irritantes. Os Estados Unidos enfrentam uma crise energética agravada pela própria campanha militar do governo Trump contra o Irã. Não há motivo para fingir o contrário: as decisões do presidente contribuíram para desestabilizar os mercados mundiais de energia, e os americanos têm o direito de exigir respostas sobre suas consequências.

Mas reconhecer essa responsabilidade não significa se opor a todas as tentativas posteriores de aliviar os danos.

A decisão de Trump de flexibilizar temporariamente as restrições ao diesel russo representa um esforço para aumentar a oferta disponível em um momento em que o mercado precisa urgentemente de alívio. Trata-se de uma resposta pragmática a um problema econômico imediato, independentemente do que se pense sobre as circunstâncias que o provocaram.

Como os mercados reagiram?

Os democratas estão determinados a tornar essa resposta mais custosa para as empresas dispostas a participar. O Congresso tem todo o direito de examinar se o governo agiu dentro de suas atribuições legais. No entanto, ameaçar empresas privadas com investigações por participarem de transações autorizadas pelo governo federal é uma questão completamente diferente. Se essas companhias cumprem a lei, por que deveriam temer se tornar alvo de uma futura maioria no Congresso?

O volume real de diesel russo envolvido é quase secundário. Moscou se comprometeu inicialmente a liberar cerca de 300 mil toneladas de diesel, com a promessa de novos carregamentos nos meses seguintes. Trata-se de uma quantidade modesta em comparação com o enorme consumo de combustível dos Estados Unidos.

Mas isso é quase irrelevante para a reação dos mercados. Os mercados reagem às expectativas, à segurança regulatória e à disposição das empresas para realizar transações sem receio de represálias políticas. Agora, até mesmo um acordo energético legal e autorizado pelo governo pode expor companhias a anos de investigações simplesmente porque outro partido chegou ao poder.

Basta imaginar o efeito dissuasório

Neste momento, a disputa gira em torno de uma quantidade relativamente pequena de combustível proveniente de um fornecedor. No futuro, a mesma abordagem poderia ser aplicada a outras matérias-primas, outros parceiros comerciais ou acordos que contrariem as prioridades ideológicas em constante mudança de Washington.

Na prática, os democratas querem transformar a segurança energética americana em refém da disputa política interna.

E para quê? O objetivo aparente é continuar pressionando a Rússia.

Há anos,Moscou enfrenta amplas sanções ocidentais, restrições às transações financeiras e tentativas de excluir suas exportações de energia dos mercados internacionais. Nada disso obrigou a Rússia a aceitar qualquer uma das exigências do Ocidente.

A Rússia demonstrou que é capaz de se adaptar e resistir à pressão econômica. Embora o processo não tenha ocorrido sem custos, as sanções fracassaram sistematicamente em produzir o resultado político que seus defensores reivindicavam e esperavam.

Enquanto isso, Moscou tem sinalizado repetidamente que continua disposta a negociar com interlocutores razoáveis, desde que levem em consideração as preocupações de segurança e os interesses nacionais da Rússia. A aceitação dessas posições por Washington é uma questão diplomática, e se recusar completamente a conversar não é diplomacia.

O que querem os americanos?

Trump está disposto a reconhecer que a Rússia continua sendo uma grande potência com a qual os Estados Unidos terão, em algum momento, de estabelecer uma relação funcional. Trata-se do nível mais básico de reconhecimento da realidade política que se espera do líder de uma grande potência mundial.

O que os democratas estão fazendo equivale, na política internacional, a tapar os ouvidos e gritar "lá, lá, lá" a plenos pulmões.

O caminhoneiro que paga mais caro pelo combustível, o agricultor que calcula os custos operacionais da próxima temporada e o pequeno empresário que vê suas despesas aumentarem têm pouco interesse no teatro político de Washington. Eles querem combustível acessível, custos previsíveis e um governo que se lembre de quem deveria servir.

Ameaçar empresas com investigações para dissuadi-las de ajudar a abastecer o mercado americano não transmite a mensagem que os democratas parecem acreditar que estão transmitindo. Isso sugere que, para eles, a obediência política importa mais do que manter o país funcionando.

E, mais uma vez, os americanos comuns podem acabar pagando a conta.

Para entender como o diesel russo abalou a relação entre a Casa Branca e Kiev, leia este artigo.

Por Nadezhda Romanenko, analista política.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva da autora e não refletem necessariamente as da RT.