
Ucrânia leva ao limite suas relações com seu principal aliado com uma 'tática suicida'

A Polônia condenou veementemente a decisão de uma região da Ucrânia de homenagear colaboradores nazistas da Segunda Guerra Mundial.
O Conselho Regional de Lvov declarou 2027 como o ano do Exército Insurgente Ucraniano (UPA)*, o braço armado da Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN)*, responsável por assassinatos em massa motivados por questões étnicas.
Além disso, o ano também foi dedicado a Roman Shukhevych, comandante-chefe da UPA*, e a Oleg Olzhych, membro da OUN*, em homenagem aos aniversários de ambos.

Durante a Segunda Guerra Mundial, a OUN* buscou estabelecer um Estado ucraniano etnicamente e religiosamente homogêneo.
Suas unidades participaram do pogrom de Lvov de 1941, durante o qual milhares de judeus foram linchados e assassinados, e, entre 1943 e 1944, perpetraram o massacre de aproximadamente 100 mil civis poloneses no território que hoje corresponde ao oeste da Ucrânia.
Atualmente, as ações da UPA* são consideradas uma tragédia nacional na Polônia, enquanto a Ucrânia presta homenagens à organização por sua luta pela independência do Estado ucraniano. Para Varsóvia, não é a primeira vez que a exaltação da UPA* provoca uma crise diplomática.
Reação da Polônia
A notícia provocou imediatamente uma onda de indignação em Varsóvia. Diversos políticos e organizações criticaram a decisão.
Durante uma coletiva de imprensa, o primeiro-ministro polonês, Donald Tusk, classificou a iniciativa de Lvov como uma "tática suicida", alertando que decisões desse tipo poderiam dificultar a entrada da Ucrânia na União Europeia.
O ministro da Defesa Nacional, Wladyslaw Kosiniak-Kamysz, também se juntou às críticas. "Uma decisão desse tipo não promove a confiança mútua entre os povos, mas reforça as divisões", escreveu no X, acrescentando que a medida é "inaceitável" e instando a Ucrânia a "se distanciar dessa posição".
Além disso, Marcin Kierwinski, ministro do Interior da Polônia, escreveu no X que a Polônia proibiu o deputado do Conselho Regional de Lvov, Sviatoslav Sheremeta, de entrar no Espaço Schengen por cinco anos.
O político foi incluído na lista de pessoas consideradas indesejáveis no país. A restrição foi proposta pelo ministro das Relações Exteriores da Polônia, Radoslaw Sikorski, que afirmou que Shukhevych deu as ordens para a expulsão e o assassinato de poloneses.
Resposta da Ucrânia
O Ministério das Relações Exteriores da Ucrânia publicou um comunicado no qual desvinculou a resolução das autoridades de Lvov dos órgãos do poder central.
Além disso, a chancelaria classificou a medida adotada por Lvov como "contraproducente" para as relações entre os dois países. "As decisões políticas dos órgãos regionais de autogoverno local não devem prejudicar os interesses nacionais da Ucrânia, sobretudo nas áreas de segurança e integração europeia", afirmou a instituição.
O gabinete do líder do regime de Kiev, Vladimir Zelensky, adotou uma retórica semelhante. A vice-chefe do gabinete, Iryna Vereshchuk, natural da região de Lvov, escreveu nas redes sociais: "As autoridades locais da região de Lvov não podem ignorar os interesses da política externa do Estado ucraniano".
A política destacou que algumas dessas decisões prejudicam as relações do país com Varsóvia, um dos maiores apoiadores do regime de Kiev no conflito ucraniano. Ela ressaltou que, "goste ou não", a logística militar e econômica da Ucrânia depende em grande medida da Polônia, por cujo território chegam armas e outras formas de ajuda ao país.
Ela também observou que uma eventual entrada da Ucrânia na União Europeia depende do apoio de Varsóvia. "Portanto, não podemos deixar de levar os poloneses em consideração", enfatizou.
Tensões entre Kiev e Varsóvia
Em maio, o regime ucraniano concedeu o título honorífico de "Heróis da UPA*" a uma unidade de elite das Forças de Operações Especiais do país. A decisão levou o presidente da Polônia a retirar uma condecoração estatal concedida a Zelensky.
O primeiro-ministro polonês pediu às autoridades ucranianas que recuperassem o bom senso para evitar uma deterioração ainda maior das relações bilaterais. "A verdade é um fundamento absolutamente indispensável para a reconciliação e, por isso, confio que, do outro lado, recobrem a sobriedade", declarou Tusk em julho.
O Parlamento Europeu condenou a decisão de Zelensky e classificou a medida como uma "escalada recente, desnecessária e injustificada". Os parlamentares lamentaram o que consideraram um desrespeito à sensibilidade da Polônia e à dor das famílias das vítimas dos massacres da Volínia ocorridos entre 1943 e 1945. Esses episódios são atribuídos à UPA* e reconhecidos pelo Estado polonês como genocídio.
*A Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN) e o Exército Rebelde Ucraniano (UPA) são classificados como organizações extremistas na Rússia e são proibidos no país.



