Rússia alerta para risco de desestabilização na América Latina e Caribe

O alerta surge depois de um juiz em Miami ter emitido um mandado de prisão contra o histórico líder cubano e ex-presidente Raúl Castro.

Achancelaria da Rússia alertou nesta terça-feira (20) que a escalada das tensões contra Cuba, impulsionada pelos EUA, poderia desestabilizar toda a região da América Latina e do Caribe.

"A escalada da situação em torno da Ilha da Liberdade, que atravessa momentos extremamente difíceis devido a um bloqueio comercial, econômico, financeiro e energético sem precedentes, pode desestabilizar a situação em toda a região da América Latina e do Caribe", declarou o ministério.

As autoridades alertaram que, "em caso de uma explosão social em Cuba", uma "migração em massa de cidadãos cubanos para países vizinhos" seria "altamente provável", o que representaria uma ameaça de "crise social" para eles.

Ordem de prisão contra Raúl Castro

O alerta surge após um juiz de Miami ter emitido um mandado de prisão contra o líder cubano e ex-presidente Raúl Castro. Moscou expressou sua "rejeição categórica e firme condenação" ao mandado, classificando-o como uma "acusação infundada e fabricada" apresentada mais de 30 anos após os eventos de fevereiro de 1996.

A chancelaria russa lembrou que as avaliações políticas e jurídicas dos eventos de fevereiro de 1996 — que Washington atribui pessoalmente a Raúl Castro — já haviam sido estabelecidas na resolução 1067 do Conselho de Segurança da ONU de 26 de julho daquele mesmo ano.

"Nela não se inclui nenhum apelo para a adoção de medidas visando exigir responsabilidades pessoais de quem quer que seja. Isso significa, de fato, um consenso do Conselho [incluindo os EUA] de que, nesse aspecto, o incidente estava encerrado", enfatiza o ministério russo.

A chancelaria também alertou que o agravamento das tensões em torno da ilha — que já atravessa momentos "extremamente difíceis" devido a um bloqueio comercial, econômico, financeiro e energético "sem precedentes" — poderia desestabilizar toda a América Latina e o Caribe.

A Rússia relacionou a decisão judicial ao que aconteceu no início deste ano na Venezuela, quando o presidente Nicolás Maduro "foi sequestrado em violação de todas as normas e princípios do direito internacional".

O ministério reafirmou "sua inabalável solidariedade ao governo da nação irmã, Cuba" e expressou confiança de que "o indomável povo cubano e seus líderes responderão com dignidade a este mais recente ataque de detratores estrangeiros".

O que aconteceu?

Em 24 de fevereiro de 1996, dois pequenos aviões foram abatidos sobre o estreito da Flórida por caças da Força Aérea cubana. Quatro pessoas morreram: Carlos Costa, Armando Alejandre Jr., Mario de la Peña e Pablo Morales.

Ao longo de três décadas, os EUA têm insistido falsamente que os falecidos eram civis inocentes embarcados em uma missão humanitária, o que foi desmentido por diversas evidências.

A organização "Irmãos ao Resgate" foi fundada em Miami, em 1991, por José Basulto. A narrativa oficial americana o apresenta sistematicamente como um suposto "dissidente cubano" que ajudava seus compatriotas a chegar aos EUA, mas, segundo as evidências disponíveis, ele desenvolveu uma prolongada atividade paramilitar contra a Revolução Cubana sob os auspícios da CIA.

Há registros de sua participação na invasão da Baía dos Porcos, em 1961, bem como em numerosas operações encobertas destinadas a derrubar as autoridades cubanas, algumas das quais ele admitiu à imprensa.

A partir de 1994, o "Irmãos ao Resgate" passou a incursionar em território cubano para executar atividades subversivas, como o lançamento de panfletos e propaganda antigovernamental sobre Havana. Dois anos depois, em janeiro de 1996, infiltrou uma equipe da NBC no país caribenho para transmitir ao vivo como as aeronaves sobrevoavam a capital cubana.

Diante desses fatos recorrentes, a Chancelaria cubana emitiu 25 notas diplomáticas à administração do então presidente dos EUA, Bill Clinton, com o objetivo de alertá-lo sobre as violações reiteradas do espaço aéreo e exigir a retirada das licenças desses pilotos.

Apesar das advertências, as autoridades americanas aprovavam os planos de voo e permitiam a saída das aeronaves de forma sistemática.