Cuba responde à nova ordem de prisão contra Raúl Castro nos EUA

A Justiça americana acusa o histórico líder revolucionário de conspirar para cometer homicídio qualificado.

O presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canelo, e o chanceler cubano, Bruno Rodríguez, condenaram nesta segunda-feira (19) a decisão de um tribunal dos Estados Unidos, que emitiu uma ordem de prisão contra o ex-presidente Raúl Castro. Eles a classificaram como uma "manobra" por parte de setores que representam a "podridão política" do estado da Flórida.

Em publicação no X, o mandatário cubano escreveu que a "repudiável ação contra o General de Exército" fazia parte de um "patético circo miamense, com pano de fundo eleitoral" e afirmou que a medida "não tem, nem terá jamais, o mínimo sentido jurídico e muito menos prático".

"Essa manobra de roupagem legal montada por políticos anticubanos contra Raúl e contra Cuba merece nossa firme condenação. Faz parte do afã agressivo e responde aos tropeços ao tentar justificar o bloqueio e o castigo coletivo contra nosso povo", declarou Díaz-Canel.

O chanceler cubano, por sua vez, disse em suas redes que essa "manobra estéril dos políticos anticubanos do sul da Flórida" é o "reflexo da podridão política e do colapso moral com que um grupo de parasitas engana e ludibria seus seguidores para que continuem contribuindo com coletas e financiamento".

Ordem de prisão

O anúncio da ordem de prisão foi feito pelo procurador-geral da Flórida, James Uthmeier, que detalhou que o Escritório da Promotoria Estadual e o Departamento de Aplicação da Lei da Flórida obtiveram um mandado de prisão estadual contra Castro, de 95 anos, sob a acusação de "conspiração para cometer homicídio qualificado em relação ao abate, em 24 de fevereiro de 1996, de duas aeronaves civis desarmadas do 'Irmãos ao Resgate' sobre águas internacionais". Essa organização é considerada por Havana como narcoterrorista.

Em maio passado, a Justiça dos EUA acusou o ex-mandatário cubano e outras cinco pessoas de supostamente terem causado a morte de quatro pessoas, entre elas três cidadãos americanos, após o abate de duas aeronaves, em 1996. Desde então, Havana afirma que os aviões violaram ilegalmente seu espaço aéreo e que agiu de acordo com a lei depois de ter feito dezenas de advertências a Washington.

O líder cubano é acusado de conspirar para cometer homicídio qualificado contra cidadãos americanos, sem direito a fiança.

O que aconteceu?

Em 24 de fevereiro de 1996, dois pequenos aviões foram abatidos sobre o estreito da Flórida por caças da Força Aérea cubana. Quatro pessoas morreram: Carlos Costa, Armando Alejandre Jr., Mario de la Peña e Pablo Morales.

Ao longo de três décadas, os EUA têm insistido falsamente que os falecidos eram civis inocentes embarcados em uma missão humanitária, o que foi desmentido por diversas evidências.

A organização "Irmãos ao Resgate" foi fundada em Miami, em 1991, por José Basulto. A narrativa oficial americana o apresenta sistematicamente como um suposto "dissidente cubano" que ajudava seus compatriotas a chegar aos EUA, mas, segundo as evidências disponíveis, ele desenvolveu uma prolongada atividade paramilitar contra a Revolução Cubana sob os auspícios da CIA.

Há registros de sua participação na invasão da Baía dos Porcos, em 1961, bem como em numerosas operações encobertas destinadas a derrubar as autoridades cubanas, algumas das quais ele admitiu à imprensa.

A partir de 1994, o "Irmãos ao Resgate" passou a incursionar em território cubano para executar atividades subversivas, como o lançamento de panfletos e propaganda antigovernamental sobre Havana. Dois anos depois, em janeiro de 1996, infiltrou uma equipe da NBC no país caribenho para transmitir ao vivo como as aeronaves sobrevoavam a capital cubana.

Diante desses fatos recorrentes, a Chancelaria cubana emitiu 25 notas diplomáticas à administração do então presidente dos EUA, Bill Clinton, com o objetivo de alertá-lo sobre as violações reiteradas do espaço aéreo e exigir a retirada das licenças desses pilotos. Apesar das advertências, as autoridades americanas aprovavam os planos de voo e permitiam a saída das aeronaves de forma sistemática.