6 rodadas, ainda sem vencedor: quem disputa o comando da ONU e por que ninguém desponta na corrida

A organização precisa encontrar o substituto do português António Guterres, cujo mandato termina em 31 de dezembro.

A 6ª rodada de votações informais para escolher o próximo secretário-geral das Nações Unidas (ONU) não conseguiu apontar um favorito claro para o cargo máximo da organização, informa a AP no sábado (17).

Nenhum dos 7 candidatos obteve o apoio dos 5 membros permanentes do Conselho de Segurança, de modo que a disputa continua em aberto, e não está descartada a possibilidade de surgirem novos candidatos.

A última votação, na sexta-feira passada (16), foi parte do processo de escolha do sucessor do português António Guterres, cujo mandato termina em 31 de dezembro de 2026.

O candidato que vier a ser escolhido se tornará o décimo secretário-geral das Nações Unidas e assumirá o cargo em 1º de janeiro de 2027.

Os principais pontos da votação

De acordo com um artigo publicado pelo centro de estudos americano Conselho de Relações Exteriores (CFR) no início de outubro, a escolha deste ano também tem um peso simbólico e político especial.

Dos 7 candidatos na disputa, 4 são mulheres, o que abre a possibilidade de a ONU eleger uma mulher para o cargo pela primeira vez.

Soma-se a isso a lógica de rotação regional informal, que, desta vez, favorece a América Latina e o Caribe na corrida pela Secretaria-Geral.

Embora a nomeação formal caiba à Assembleia Geral, ela depende de uma recomendação prévia do Conselho de Segurança.

A Reuters lembrou, no sábado (17), que, para obter essa recomendação, um candidato precisa de pelo menos 9 votos favoráveis entre os 15 membros do Conselho e, além disso, não pode receber nenhum voto contrário dos 5 membros permanentes, que têm poder de veto: Rússia, China, França, Reino Unido e Estados Unidos.

A novidade da 6ª rodada foi o uso, pela primeira vez, de cédulas vermelhas para identificar os votos dos membros permanentes, permitindo identificar com mais clareza a resistência desses países. Segundo relatos, nenhum dos candidatos conseguiu superar essa barreira.

Quem está à frente na disputa

A Reuters aponta Rebeca Grynspan Mayufis, secretária-geral da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) e ex-vice-presidente da Costa Rica, como a favorita, por uma margem estreita.

De acordo com a agência, na última rodada ela recebeu 9 votos favoráveis, 5 contrários e 1 voto "sem opinião". No entanto, 2 dos votos contrários vieram de membros permanentes.

Segundo o CFR, seu perfil combina experiência política e multilateral, com um discurso voltado à restauração da confiança na ONU e ao fortalecimento da capacidade de resposta da organização.

Logo atrás de Grynspan estaria Carolyn Rodrigues-Birkett, atual representante permanente da Guiana na ONU e ex-ministra das Relações Exteriores de seu país.

Ela recebeu 8 votos favoráveis, 6 contrários e 1 voto "sem opinião", incluindo 2 votos contrários de membros permanentes do Conselho de Segurança.

Sua candidatura se baseia em uma agenda voltada a reafirmar os princípios fundamentais das Nações Unidas, colocar os direitos humanos no centro da atuação da organização e fortalecer os esforços de desenvolvimento global.

Enquanto isso, o argentino Rafael Grossi, diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), recebeu um nível de apoio muito semelhante ao de Rodrigues-Birkett, embora com 1 voto a menos de um membro permanente favorável à sua candidatura.

Grossi, por sua vez, defende uma ONU mais eficiente e orientada para resultados.

A análise da Reuters acrescenta que outros 4 candidatos, entre eles ex-funcionários da ONU e diplomatas de alto escalão, continuam na disputa, mas contam com um apoio cada vez menor.

Após a votação, o ex-presidente do Senegal, Macky Sall, anunciou sua retirada da corrida.

Paralelamente, diplomatas ouvidos pela agência afirmam que várias figuras de destaque — incluindo ministros das Relações Exteriores e líderes atuais ou antigos — estudam entrar na disputa.

A disputa pelo rumo da organização

Enquanto a distribuição dos votos continua sem apontar um vencedor claro, a incerteza também é alimentada pela posição dos Estados Unidos. Nas últimas semanas, numerosos funcionários americanos deixaram claro que nenhum dos candidatos atuais atende plenamente às expectativas do governo Trump, informou o Washington Post na sexta-feira passada (16).

O jornal destaca que a situação se torna ainda mais complexa porque o debate já não gira apenas em torno dos candidatos, mas também do futuro da própria organização.

Embora os Estados-membros divirjam sobre a maneira de conduzir esse processo, há um consenso relativamente amplo sobre a necessidade de reformar a ONU.

Peter Yeo, vice-presidente sênior da Fundação das Nações Unidas e especialista nas relações entre Washington e as Nações Unidas, afirmou que "esta disputa pela Secretaria-Geral, em particular, é diferente de todas as outras".

"Estão sendo levantadas questões fundamentais sobre o futuro papel da organização [...] o que a ONU faz, qual é o seu mandato, quais programas deveria executar e como deveria ser financiada", acrescentou.