Mas, em uma eleição cada vez mais marcada pelas redes sociais, a influência do confronto pode ir além de quem respondeu melhor às perguntas ou levou vantagem nos embates: ela também depende de quais momentos serão recortados, compartilhados e vistos por quem não acompanhou a transmissão completa.
O debate não termina quando as câmeras são desligadas
Para parte do público, o confronto se limita à transmissão pela TV.
Para outra, ela chega em fragmentos: um trecho de poucos segundos no TikTok, uma publicação no Instagram*, um vídeo encaminhado em grupos de mensagens ou uma montagem compartilhada por páginas de política.
Um recorte pode reproduzir fielmente uma fala e, ainda assim, oferecer uma impressão incompleta quando é deixada de fora a pergunta que a provocou, a resposta do adversário ou o contexto da discussão.
Desta forma, a percepção sobre o desempenho de um candidato pode ser construída por quem seleciona e divulga os trechos, não apenas pelo que aconteceu diante das câmeras.
Enquanto vídeos ligados à esquerda tendiam a ser mais longos, os de apoiadores da direita eram, em geral, mais curtos e editados.
A pesquisa também identificou o uso de humor e humilhação como recursos de comunicação política e observou que os comentários frequentemente reforçavam as posições defendidas nos vídeos.
Cortes transformam o confronto em conteúdo para as redes
O debate também funciona como matéria-prima para campanhas, influenciadores e páginas que disputam a atenção do público.
O cientista político Elias Tavares descreveu o debate como uma "enorme usina de conteúdo".
Nesse ambiente, uma fala pode ganhar vida própria depois da transmissão.
Um trecho que provoca risadas, indignação ou surpresa tem potencial para circular mais do que uma resposta extensa sobre propostas de governo.
Os próprios candidatos também podem formular declarações pensando na possibilidade de que elas sejam transformadas em vídeos curtos.
Isso não significa que todo corte seja enganoso ou que as redes determinem, sozinhas, o resultado eleitoral.
O ponto é que a seleção dos momentos, a legenda utilizada e o público que recebe cada publicação influenciam a maneira como o confronto é interpretado.
Viralizar não significa mudar votos
O número de visualizações de um vídeo não revela, por si só, seu efeito eleitoral.
Um trecho pode mobilizar apoiadores, reforçar a rejeição ao adversário ou alcançar eleitores indecisos.
Também pode provocar uma reação contrária à pretendida por quem o publicou.
O impacto depende de fatores como as preferências anteriores do eleitor, a confiança na fonte, o contexto em que o vídeo é recebido e a exposição a versões diferentes do mesmo episódio.
Por isso, curtidas, compartilhamentos e visualizações são indicadores de circulação e engajamento, mas não comprovam que alguém mudou de voto.
Efeito dos cortes
Ele também passa pela disputa posterior para definir quais falas serão lembradas, quais imagens representarão cada participante e quais interpretações ganharão mais alcance.
Em uma eleição marcada pela rápida circulação de vídeos, uma questão se torna central: o eleitor está avaliando o desempenho do candidato no debate ou a versão do debate que chegou até ele?
A resposta ajuda a entender por que acompanhar a transmissão completa e consumir apenas trechos nas redes sociais podem produzir percepções bastante diferentes sobre o mesmo confronto.
*Classificada na Rússia como uma organização extremista cujas redes sociais são proibidas em seu território.