
Brasil está na linha de frente da desdolarização; um governo Flávio poderia mudar esse rumo?

Durante o terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, o Brasil defendeu a redução da dependência do dólar nas transações internacionais. Em outubro de 2023, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, classificou o presidente brasileiro como "um dos principais incentivadores" da desdolarização no mundo.
Lula tem defendido a ampliação das transações em moedas nacionais. Também chegou a propor a criação de uma moeda comum para os países do BRICS, embora a iniciativa não tenha avançado.
Desde então, foram registrados avanços na conexão entre sistemas de pagamento de diferentes países. Em agosto de 2026, a operadora russa MTS anunciou a integração do Pix aos seus sistemas, permitindo que usuários paguem por produtos e serviços no Brasil por meio da leitura de códigos QR. O sistema pode ser utilizado em praticamente todos os estabelecimentos brasileiros que aceitam Pix, de pequenos comércios a hotéis e restaurantes.

Na mesma linha, a UnionPay International, subsidiária da gigante chinesa de pagamentos, anunciou um projeto-piloto para conectar aplicativos de pagamento chineses ao Pix. A iniciativa permitirá que usuários de carteiras digitais e aplicativos bancários integrados à plataforma paguem diretamente em estabelecimentos brasileiros por meio de códigos QR.
A UnionPay também avança no mercado brasileiro de cartões, desafiando a parcial hegemonia norte-americana no país. A operação local prevê que parte dos recursos gerados por operações financeiras seja destinada a iniciativas sociais, incluindo o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e outras organizações populares.
Segundo o ministro Mauro Vieira, os esforços brasileiros são na direção de estabelecer mecanismos de pagamento voluntários e de baixo custo. "Não se trata de abandonar o dólar; trata-se de criar novas formas de promover o comércio e de ter um sistema rápido, um sistema direto e, é claro, também um sistema mais barato para o comércio bilateral entre os países", afirmou em setembro.
Como Flávio enxerga tudo isso?
Em entrevista à imprensa internacional em junho, o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro, favorito no segundo turno segundo as pesquisas de opinião, fez duras críticas à política internacional conduzida durante o governo Lula.
"Certamente, assim que eu sentar naquela cadeira, como presidente da República, isso será reavaliado: se o Brasil deve permanecer num bloco que, hoje, é muito mais ideológico, que é usado pelo presidente Lula para provocar, inclusive, os Estados Unidos e o presidente Trump, ao propor, dentro desse bloco, que o dólar deveria deixar de ser a moeda de referência para negociações internacionais entre países. (...) Então, [O BRICS] não trouxe nada de benéfico para o nosso país. É algo a se considerar, sair desse bloco", afirmou à época ao canal PragerU.
Já em julho, em documento encaminhado ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), Flávio propôs assumir um compromisso legislativo para impedir a integração do Pix a sistemas internacionais de liquidação financeira não ocidentais, o que poderia restringir sua conexão a mecanismos de pagamento associados aos BRICS. A medida foi apresentada no contexto das negociações comerciais com Washington, em meio às críticas norte-americanas ao sistema brasileiro de pagamentos.
