Airbnb paga estudo para 'limpar sua imagem' em crise habitacional na Colômbia

Na América Latina e Europa, o mercado de aluguel de curto prazo explorado por empresas como o Airbnb vem sendo culpado pela gentrificação e aumento do custo de vida em bairros residenciais tradicionais.

A cidade de Medellín, um dos príncipais pontos turísticos da Colômbia, passou a analisar seus sistemas de zoneamento urbano, diante de relatos de gentrificação e turistificação das áreas residenciais causando um grave aumento do custo de vida.

O prefeito de Medellín, Federico Gutiérrez, propôs modificar o Plano de Ordenamento Territorial (POT) que visa regular os espaços para aluguel de curto prazo, como o Airbnb, organizar setores aptos para a atividade turística e proteger os bairros residenciais tradicionais, conforme informou o site de notícias Minuto 30 no final do mês passado.

A capital da província de Antioquia tem cerca de 13 mil imóveis ativos no Airbnb e cerca de 24 mil acomodações entre todas as plataformas de aluguel por períodos curtos.

No mesmo dia em que apresentou essa proposta, o Airbnb divulgou um estudo financiado por ele mesmo que concluía que o aluguel por períodos curtos não teve impacto no aumento e na disponibilidade de moradias naquela cidade colombiana. Isso foi classificado pelo El Espectador nesta segunda-feira (5) como parte de uma intensa campanha de lobby do gigante do turismo sediado na Califórnia.

O que diz o estudo?

Segundo as conclusões do trabalho intitulado "Segregação espacial, não deslocamento: aluguéis de curto prazo e aluguéis de longo prazo em Medellín", elaborado em setembro pelos professores de Economia da Pontifícia Universidade Javeriana Ángela Fonseca Galvis e Andrés Felipe Giraldo Palomino, foram analisadas 15 mil quadras de Medellín e do Vale do Aburrá, uma região localizada no centro de Antioquia, entre 2015 e 2025. O propósito era determinar se a expansão dos aluguéis de curta duração, tipo Airbnb, havia elevado os custos e reduzido a oferta de longo prazo.

A pesquisa, que contou com "o apoio, em parte, de um contrato de consultoria entre a Pontifícia Universidade Javeriana e o Airbnb Latinoamérica, que aportou uma parte significativa do financiamento", concluiu que "o aumento dos aluguéis em Medellín não pode ser atribuído especificamente aos aluguéis de curto prazo", pois segundo os autores estes "respondem a forças estruturais mais amplas (demanda residencial e formação de famílias, migração, limitações relacionadas ao solo e à construção, condições de financiamento e indexação dos contratos)".

A respeito disso, o jornal  El Armadillo consultou a Universidade Javeriana sobre a posição da plataforma de aluguéis frente aos resultados obtidos, e esta respondeu que o Airbnb não havia intervido na formulação dos achados.

No entanto, em janeiro passado, o prefeito de Medellín informou que havia conversado com um executivo da plataforma devido ao fato de ter recebido denúncias sobre cancelamentos de reservas de acomodações feitas com muita antecedência para oferecê-las a preços até dez vezes mais altos duranteo show do Bad Bunny na cidade, segundo o Publimetro.

Pressão regulatória na Europa

Em 10 de setembro, a France 24 informou que a Comissão Europeia propôs harmonizar as normas sobre aluguéis de curta duração em todo o bloco, depois que cidades como Paris, Barcelona e Veneza adotaram regulações individuais. Segundo a emissora, os aluguéis subiram 59% em Berlim, 75% em Madri e 103% em Lisboa na última década, e a proposta ainda precisa ser aprovada pelos Estados-membros e pelo Parlamento Europeu.

O caso de Barcelona é emblemático: segundo a Associated Press (AP), em 16 de junho de 2025, a prefeitura da cidade anunciou a eliminação de todas as 10 mil licenças de aluguel de curto prazo até 2028, uma medida que surpreendeu o Airbnb e outras plataformas.

A decisão foi tomada em meio a uma crise habitacional: Barcelona recebeu 15,5 milhões de visitantes em 2024 para uma população de 1,7 milhão, e moradores como Andreu Martínez afirmam que o aluguel subiu mais de 30% com a conversão de apartamentos em aluguéis turísticos. "Nossas vidas, como moradores de longa data de Barcelona, estão chegando ao fim. Estamos sendo expulsos sistematicamente", declarou Martínez à AP.