
Religião pode decidir a eleição presidencial no Brasil? Entenda o peso de católicos e evangélicos

A poucos dias do primeiro turno das eleições, marcado para 4 de outubro, a religião voltou a ocupar espaço no debate público brasileiro.
Uma pesquisa do Real Time Big Data mostra a dimensão dessa divisão: entre os eleitores evangélicos, Flávio Bolsonaro (PL) aparece com 52% das intenções de voto, contra 31% de Lula (PT); entre os católicos, Lula tem 49%, enquanto Flávio registra 33%.
O cenário eleitoral ocorre em meio a uma transformação religiosa que vem alterando o perfil do país.

Embora o catolicismo ainda seja a maior religião brasileira, sua participação caiu nas últimas décadas, enquanto o número de evangélicos aumentou.
Ao mesmo tempo, porém, um fenômeno chama atenção: a capacidade de mobilização de parte dos católicos, especialmente nas redes sociais.
Um dos exemplos mais expressivos é Frei Gilson.
Em uma oração transmitida às 4h durante a Quaresma de 2025, cerca de 1 milhão de pessoas acompanharam a transmissão.
País em transformação
O número de evangélicos tem aumentado significativamente no Brasil. Atualmente, eles representam cerca de 26,9% da população com mais de 10 anos, de acordo com os últimos dados do censo de 2022.
Desde 2010, seu número aumentou em 12 milhões de pessoas, de 35 milhões para 47,4 milhões.
No mesmo período, a proporção de católicos caiu de 65 para 57%.
Em declarações à RT, a professora da Escola Superior de Economia, Ana Lívia Esteves Araújo, apontou que o Brasil nunca teve um número tão elevado de evangélicos, embora tenha indicado que o ritmo de crescimento desse grupo tem diminuído.
Segundo a especialista, uma das razões para esse crescimento é que as ideias evangélicas se encaixam em grande parte com a realidade econômica do país.
A chamada teologia da prosperidade, que tem uma forte presença no movimento evangélico brasileiro, promove a ideia de que o bem-estar e o enriquecimento material podem ser um sinal de bênção divina.

"Isso significa que você está fazendo algo certo, que Deus está aprovando você e é por isso que você tem bens materiais. Isso é praticamente o oposto da visão católica tradicional dos ricos", explicou ela.
"A teologia da prosperidade se encaixa muito bem com a realidade econômica do Brasil de hoje, que é um país capitalista com práticas geralmente muito neoliberais e uma população que pensa cada vez mais que a chave para o sucesso depende do indivíduo e não necessariamente da comunidade", disse ela.
Em 2018, Jair Bolsonaro obteve 12 milhões de votos a mais entre os evangélicos do que com seu rival, Fernando Haddad. Em 2022, a votação desse grupo foi dividida e Lula conseguiu reduzir a diferença.
Disputa pelos votos dos evangélicos
Nas eleições de 2026, os candidatos também estiveram ativamente envolvidos na disputa sobre o apoio dos vários grupos religiosos.
Em meados de setembro, Lula, que se declara católico, criticou a Igreja Católica por sua posição em relação às mulheres e afirmou que as igrejas evangélicas têm adotado uma postura diferente.
"Enquanto a Igreja Católica não acabar com celibato e permitir que mulheres possam ser bispos, padres, a gente vai ver Igreja Católica passando dificuldade", disse ele.

"Essa é uma vantagem que a Igreja Evangélica tem. As mulheres são tratadas em igualdade de condições", complementou.
Flávio continua sendo apoiado por uma parte significativa de evangélicos e pastores influentes, como Silas Malafaia.
A estratégia de Lula, é diferente: busca atrair pequenos grupos progressistas e igrejas "fragmentadas" para diminuir a lacuna em uma carreira onde cada ponto percentual pode ser relevante.
Nossa Senhora Aparecida
Poucos dias antes do primeiro turno, a questão religiosa voltou ao centro do debate eleitoral.
Na semana passada, circulou nas redes sociais uma informação falsa de que Flávio Bolsonaro teria planejado retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil.
No entanto, não foi encontrada nenhuma declaração ou proposta do candidato nesse sentido: a origem do boato era uma antiga iniciativa legislativa apresentada em 2007, que já havia sido arquivada.
A equipe jurídica de Flávio protocolou uma notícia-crime na Procuradoria-Geral Eleitoral (PGE), solicitando a abertura de um inquérito criminal contra pelo menos 29 perfis nas redes sociais.

Flávio acusou a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) de divulgar essas informações.
"Isso acontece porque, no passado, alguns grupos dentro da Igreja Católica desempenharam um papel muito importante na fundação do Partido dos Trabalhadores após a ditadura militar. De fato, durante a ditadura militar, a Igreja participou ativamente de ações políticas contra o regime militar", disse Ana Lívia Esteves à RT.
O próprio Flavio comparou o escândalo à tentativa de assassinato de seu pai em 2018, quando foi esfaqueado.
"Ele está tentando apresentar o catolicismo como uma religião de esquerda. Ele está tentando apresentar todos os católicos como comunistas e pessoas da esquerda, o que, é claro, não é verdade e constitui uma deturpação", disse Ana Lívia Esteves.
Segundo a analista, com essa estratégia, Flávio aborda os católicos que já têm uma posição política definida.
"Não é realmente chegar ao grupo principal que deveria estar visando: católicos indecisos ou aqueles que não são politizados", disse ele.
Na visão de Esteves, o novo escândalo relacionado às notícias falsas apresenta católicos indecisos, um grupo que poderia influenciar o resultado da eleição, na campanha eleitoral.
"A principal tarefa dos candidatos agora é envolver grupos que não participam ativamente do processo eleitoral: aqueles que estão indecisos ou dispostos a não votar", disse ela.



