O presidente da Rússia, Vladimir Putin, voltou a recorrer às palavras do falecido político social-democrata alemão Egon Bahr sobre a transformação da Europa após o fim da Guerra Fria.
Durante a sessão plenária do Clube Internacional de Debates Valdai, realizada na quinta-feira (1º), Putin mencionou Bahr várias vezes e relembrou seus alertas feitos no início dos anos 90 como um exemplo de uma visão política que não foi levada em conta.
A referência surgiu durante uma discussão sobre o desaparecimento da União Soviética e a evolução posterior das relações entre Rússia e Ocidente. O presidente russo afirmou que, após o fim da Guerra Fria, a Europa não conseguiu criar uma arquitetura de segurança comum e que a lógica de blocos acabou reaparecendo.
Quem foi Egon Bahr?
Egon Bahr nasceu em 1922 na cidade de Treffurt e morreu em Berlim em 2015. Jornalista de formação, ingressou no Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD) e se tornou um dos principais colaboradores do então chanceler federal Willy Brandt (1969-1974).
Ele foi um dos arquitetos da Ostpolitik, a política de aproximação da Alemanha Ocidental com os países da Europa Oriental e a União Soviética. Na década de 1960, Bahr formulou o princípio de "Wandel durch Annäherung" (mudança por meio da aproximação), segundo o qual a distensão e o diálogo poderiam contribuir para transformar as relações entre os blocos.
Como colaborador de Brandt, participou das negociações que resultaram nos tratados de Moscou e Varsóvia de 1970 e no Tratado Fundamental entre as duas Alemanhas.
Após a queda do Muro de Berlim, o político defendeu a criação de uma nova arquitetura de segurança europeia que levasse em conta os interesses de todos os países, incluindo a União Soviética.
O que Putin diz sobre Bahr?
Putin já havia citado Bahr em outras ocasiões, mas no fórum de Valdai voltou a destacar seus alertas sobre o futuro da Europa após a reunificação alemã.
Assim, lembrou que o político via riscos na continuação da lógica de blocos e considerava necessário construir um sistema de segurança europeu que incluísse a Rússia. O mandatário apresentou essas ideias como uma mostra da capacidade de Bahr de prever os problemas que surgiriam posteriormente.
"Houve políticos que compreendiam a fundo os problemas e propunham, a meu ver, os caminhos corretos para resolvê-los. Precisamente hoje suas avaliações podem ser qualificadas de proféticas", afirmou o presidente russo.
O chefe de Estado citou declarações de Bahr de 1990, nas quais ele alertava que na OTAN havia círculos que "de modo algum ardiam em desejos de empreender o caminho da cooperação pan-europeia" e que, se a divisão da Europa não fosse superada, a URSS estaria condenada "ao isolamento internacional". Foi exatamente o que acabou acontecendo, afirmou Putin.
Na época, lembrou, propunha-se criar um Conselho de Segurança com amplas atribuições, do qual participariam os EUA, a URSS e praticamente toda a Europa Oriental e Central. Mas após a desintegração da União Soviética, no Ocidente impuseram-se justamente as forças contrárias a essa cooperação, acrescentou.
"Era um homem inteligente. Ninguém lhe deu ouvidos", disse Putin sobre Bahr já em 2024, durante sua entrevista com Tucker Carlson. Naquela ocasião, também sustentou que o político alemão defendia a criação de um novo sistema de segurança europeu com a participação da Rússia, dos Estados Unidos, do Canadá e de outros países europeus.
Um político além de seu tempo
Bahr desempenhou um papel importante na redução das tensões na Europa durante a Guerra Fria. Participou das negociações com o ministro das Relações Exteriores soviético, Andrei Gromiko, que resultaram na assinatura do Tratado de Moscou em 1970.
O pacto consolidou a inviolabilidade das fronteiras na Europa e confirmou a renúncia da República Federal da Alemanha (RFA) a reivindicar os territórios que se encontravam sob a jurisdição da URSS e da Polônia.
Putin contrastou a postura de Bahr com a atual geração de líderes europeus, que abandonaram a política de diálogo com o Leste e apostaram na confrontação com a Rússia. Para justificar tal retórica de enfrentamento, esses dirigentes apresentam a suposta "ameaça russa" como um argumento para endurecer sua política de militarização.
No entanto, o aumento da popularidade dos partidos que defendem retomar as relações com Moscou, junto com o declínio dos atuais governos no poder, sugere que os cidadãos europeus não aprovam essa política agressiva.