A Síria iniciou o transporte rodoviário de gasolina importada para o Iraque a partir do porto de Baniyas, estabelecendo um corredor energético bidirecional em resposta ao fechamento do Estreito de Ormuz causado pela guerra dos EUA contra o Irã, declarou à agência Reuters o diretor da estatal Syrian Petroleum Company (SPC), Tareq Shallash, na sexta-feira (25).
O primeiro carregamento, com mais de 32 mil toneladas métricas de gasolina transportadas pelo navio Avanti, foi descarregado em tanques de armazenamento da refinaria de Baniyas antes de seguir por caminhões durante esta semana.
O governo iraquiano já utilizava rotas sírias para exportar óleo combustível desde o bloqueio de Ormuz, sua principal via comercial no Golfo, tendo declarado planos de desenvolver rotas alternativas através da Síria mesmo com eventual normalização do tráfego pelo estreito.
A guerra dos EUA e Israel contra o Irã expôs vulnerabilidades das rotas comerciais existentes, acelerando uma reordenação regional. Iraque, Síria e Líbano buscam capitalizar suas posições geográficas entre Europa e Golfo, diversificando vínculos econômicos com apoio do governo Trump para reduzir a influência iraniana.
Shallash informou que 77 caminhões-tanque já partiram rumo à fronteira iraquiana, com carregamento em andamento e novas remessas previstas. A operação ocorre mediante contrato de trânsito entre a SPC e a empresa catari UCC Holding, identificada como fornecedora e responsável pelo gerenciamento do transporte.
O porta-voz do Ministério do Petróleo iraquiano, Saleem al-Rikabi, confirmou à reportagem que "um contrato foi assinado entre a SOMO e a empresa catari para abastecer o Iraque com gasolina melhorada". O combustível não é produzido na Síria nem retirado de estoques destinados ao mercado sírio, esclareceu Shallash.
O diretor indicou que o atual contrato se limita à gasolina, embora a rota possa expandir-se futuramente para outros derivados, petróleo bruto ou mercadorias diversas.
Histórico de tensões
A decisão do Iraque de estabelecer o corredor terrestre ocorre dias após a suspensão de voos iranianos em seus quatro principais aeroportos — Bagdá, Najaf, Erbil e Sulaymaniyah — em resposta às novas sanções dos EUA contra o Irã.
O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, advertiu que todas as companhias aéreas iranianas seriam "banidas do mundo" a partir de 23 de setembro, com ameaças de sanções secundárias a empresas que prestassem serviços a transportadoras do país.
O Irã reagiu com ultimato. Mohammad Mokhber, conselheiro do líder supremo iraniano Mojtaba Khamenei, alertou que "os voos na região ou estão abertos a todos ou a ninguém", enquanto Mohsen Rezaei, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional, ameaçou interromper aeroportos de países que bloqueassem voos iranianos.
Sustentando seu posicionamento delicado entre influências contraditórias, o governo central do Iraque evitou declarações oficiais sobre as suspensões de voos "porque não quer antagonizar" facções pró-iranianas no parlamento, segundo repórteres do jornal catari Al Jazeera.
A presença de milícias alinhadas ao Irã no território iraquiano adiciona complexidade ao cenário. As Forças de Mobilização Popular, associadas pelos americanos ao Irã, foram alvo de bombardeios conjuntos dos EUA e Arábia Saudita em julho.
Satélites registraram neste mês um possível incêndio em base militar americana em Erbil, no Iraque, após retaliação iraniana.
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Essas tensões evocam igualmente a sombra da guerra de 1980-1988 entre os dois países, conflito recordado pelo exército iraniano no aniversário da repatriação dos prisioneiros de guerra em agosto de 1990, que trocou dezenas de milhares de pessoas de cada uma das partes.
Rezaei, nesta semana, recordou que países árabes apoiaram Saddam Hussein na guerra contra o Irã após a Revolução Islâmica iraniana de 1979, em uma referência histórica apresentada como alerta de desconfiança. Rezaei convocou países do Golfo a não confiarem nos EUA e desenvolverem parcerias com o governo iraniano, afirmando que "os EUA e Trump eventualmente irão embora da região".