Convite sem aviso prévio que ninguém sabe o que significa: como Von der Leyen pegou a União Européia de surpresa

Além da presidente da Comissão Européia ter agido por conta própria sem consultar os estados membors, ninguém sabe o que seria na prática a "adesão associada" proposta por Ursula Von der Leyen ao Canadá.

Durante seu discurso anual sobre o Estado da União, nesta quarta-feira (16), a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, surpreendeu os aliados com uma iniciativa ao propor que o Canadá se torne o primeiro membro associado da UE.

"Eu disse que precisamos repensar urgentemente nossas parcerias. Por isso, gostaria de trabalhar com vocês para abrir as portas para que o Canadá se torne o primeiro membro associado da UE", afirmou Von der Leyen.

Ela indicou que a Europa e o Canadá "veem o mundo com os mesmos olhos" e que suas posições coincidem em muitas áreas, "da inteligência artificial às mudanças climáticas, do Ártico à geopolítica". No entanto, essa proposta gerou perplexidade na UE, devido à falta de coordenação prévia e de uma definição clara do novo conceito.

Anúncio inesperado

A ideia de Von der Leyen não foi acordada com os membros da União e provocou grande confusão entre eles, informou o Politico, citando vários diplomatas. Um deles destacou "o perigo" que a confidencialidade envolve nessa questão e detalhou que a presidente não havia levantado o assunto em um almoço recente com os embaixadores da UE.

Outra fonte indicou que, na cópia do discurso obtida pelo governo de seu país antes do evento, a expressão "adesão associada" não havia sido mencionada.

"Ninguém sabe realmente o que isso significa"

Outro problema é que o próprio conceito proposto por Von der Leyen ainda não tem uma definição clara. "Ninguém sabe realmente o que isso [a adesão associada] significa", admitiu outro diplomata.

De acordo com os tratados da UE, a organização mantém relações estreitas com vários países, mas apenas os 27 Estados-membros podem aspirar a ocupar um cargo nas principais instituições políticas do bloco e desempenhar um papel formal na elaboração de suas leis. Um novo modelo de adesão "exigiria, na verdade, uma alteração dos tratados", afirmou o eurodeputado alemão do grupo Socialistas e Democratas, René Repasi.

Segundo um dos representantes da UE, a condição de membro associado implicaria não apenas repensar as relações existentes e redefinir os vínculos, mas também criar uma nova categoria de associação para a expansão do livre comércio e a cooperação em defesa, inteligência artificial e ciência de alta tecnologia. No entanto, por enquanto, não se trata de liberdade de circulação ou de extensão de direitos políticos.

"Trata-se de um modelo diferente"

O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, em seu discurso no Parlamento Europeu nesta quinta-feira, acolheu com satisfação a proposta de Von der Leyen, mas estabeleceu certos limites.

"Mais uma vez, cabe à Europa definir isso. O Canadá não está em condições nem busca se tornar um membro de pleno direito da União Europeia. Portanto, trata-se de um modelo diferente. Um modelo pertinente para um país que compartilha vínculos profundos, uma história e as mesmas aspirações para nossos povos que o Parlamento Europeu tem para os europeus e o governo canadense para os canadenses", indicou durante a coletiva de imprensa.

Ao mesmo tempo, ressaltou que Ottawa poderia aprofundar a cooperação com a UE, entre outras áreas, em setores como minerais críticos, capacidade industrial de defesa, segurança energética e IA.

Tensões com a Casa Branca

O anúncio de Von der Leyen coincide com um período de crescentes tensões comerciais e políticas da Casa Branca com o Canadá e o bloco europeu, e já provocou a reação do presidente americano, Donald Trump, que ameaçou a União Européia com represálias comerciais caso os acordos não correspondam ao que Washington qualifica como atos de boa-fé.

"Se fizerem isso — incluir o Canadá como membro associado da UE —, imporei tarifas muito severas, deixarei de negociar com a Europa ou tomarei outras medidas contundentes [...]. Se a intenção for boa, tudo bem; mas se for má, imporemos tarifas muito elevadas à Europa", advertiu ao ser questionado pela imprensa sobre o assunto.