
'Assassinatos, suicídios e canibalismo': 2 mil moderadores da Meta vão à Justiça após demissões

O Tribunal Superior de Justiça da Catalunha realizou na terça-feira (15) uma audiência sobre a demissão coletiva de 2.062 trabalhadores responsáveis pela moderação de conteúdos do Facebook* e Instagram* em Barcelona.
A equipe pertencia à CCC Barcelona Digital Services, posteriormente incorporada à Telus Digital, empresa contratada pela Meta** para revisar conteúdos violentos, sexuais e perturbadores. O tribunal agora aguarda a sentença.
O processo questiona o fechamento do serviço e as demissões coletivas acordadas em abril de 2025. O sindicato FIST pede a anulação das dispensas e afirma que o encerramento pode estar relacionado ao crescente número de processos contra a empresa.
Antes das demissões, havia mais de 1.200 reclamações sobre diferenças salariais, danos à saúde mental e prevenção de riscos trabalhistas.

Os trabalhadores também afirmam que parte das atividades foi transferida para outros países europeus.
As empresas negam e dizem que a Meta decidiu encerrar o contrato, levando às demissões por razões organizacionais e produtivas.
O centro de moderação da Meta na Espanha
A operação começou em junho de 2018, quando o então Facebook abriu um grande centro de moderação na Torre Glòries, administrado pela CCC Barcelona Digital Services.
Centenas de funcionários de diferentes nacionalidades revisavam conteúdos do Facebook, Instagram e Messenger em dezenas de idiomas.

Na prática, os moderadores eram o último filtro humano diante de alguns dos conteúdos mais extremos da internet.
Eles precisavam analisar diariamente imagens de assassinatos, suicídios, torturas, estupros e abusos sexuais contra menores para decidir se o material violava as regras das plataformas.
Assassinatos, suicídios e abusos sexuais: as denúncias de 2023
A situação ganhou repercussão em outubro de 2023, após uma reportagem do jornal espanhol La Vanguardia reunir relatos de funcionários.
Um brasileiro que começou a trabalhar no centro aos 19 anos contou que foi colocado na equipe de "alta prioridade", responsável pelos casos mais graves. Segundo ele, a exposição a conteúdos extremos provocou pesadelos, insônia e ataques de pânico.
Outros funcionários relataram ter visto vídeos de canibalismo, torturas, violência sexual, maus-tratos a animais e suicídios transmitidos ao vivo.
Uma moderadora argentina disse que passou a trabalhar especificamente com transmissões de suicídios e desenvolveu pensamentos suicidas.
Também foram relatados casos de ansiedade, depressão, estresse pós-traumático e distúrbios graves do sono.
Além da natureza dos conteúdos, os trabalhadores criticavam o ritmo de trabalho. Alguns vídeos precisavam ser vistos repetidamente e na íntegra, enquanto as metas de produtividade eram consideradas excessivas e os intervalos, insuficientes.

Em outubro de 2023, a CCC/Telus tinha cerca de 2.030 funcionários em Barcelona e registrava absenteísmo de 19,8%. As maiores equipes eram as de espanhol latino-americano e português, com cerca de 800 trabalhadores cada.
A empresa afirmava oferecer psicólogos e espaços de bem-estar, mas funcionários consideravam essas medidas insuficientes diante da exposição contínua a conteúdos extremos.
A Inspeção do Trabalho da Catalunha abriu uma investigação em 2021 e, no ano seguinte, aplicou multa de 40.985 euros à empresa por falhas na prevenção de riscos psicossociais.
Tribunais reconhecem o dano psicológico
Em janeiro de 2024, a Justiça reconheceu como acidente de trabalho o transtorno psiquiátrico sofrido por um dos moderadores. Em 4 de março de 2026, a Suprema Corte espanhola confirmou a decisão e reconheceu a relação entre os problemas de saúde do trabalhador e sua atividade profissional.
O tribunal considerou determinante a exposição contínua a imagens de violência extrema durante jornadas de trabalho intensas. O funcionário trabalhou por apenas oito meses antes de entrar em licença médica e não voltou à atividade.
Enquanto isso, o centro de Barcelona foi fechado. Em 2 de abril de 2025, a Meta informou que deixaria de contratar os serviços de moderação prestados pela Telus na Torre Glòries.
A decisão colocou cerca de 2.000 empregos em risco e levou ao processo de demissão coletiva entre abril e maio.
Agora, o Tribunal Superior de Justiça da Catalunha deverá decidir se o fechamento e as demissões decorreram legitimamente do fim do contrato com a Meta ou se, como afirma o FIST, parte da atividade foi transferida para outros países enquanto a empresa deixava para trás uma equipe que acumulava mais de 1.200 reclamações.
*Pertencente à Meta, classificada na Rússia como organização extremista, cujas redes sociais são proibidas em seu território.
**Classificada na Rússia como organização extremista, cujas redes sociais são proibidas em seu território.


