
Qual arma secreta os EUA possuem no espaço e por que ela é tão perigosa para o mundo?

Os Estados Unidos reconheceram oficialmente, pela primeira vez, que implantaram armas no espaço. Washington "dispõe de armas de controle espacial em órbita, capazes de defender as forças conjuntas contra adversários hostis",declarou o secretário da Força Aérea dos EUA, Troy Meink, durante a conferência anual Ar, Espaço e Ciberespaço, realizada na segunda-feira (14).
A autoridade não especificou de que tipo de armamento se trata. Especialistas militares sugerem que poderia tratar-se de sistemas espaciais de guerra eletrônica, em particular de dispositivos capazes de interferir nas comunicações ou nos sinais de satélites.

"Vou presumir que o que ele está mencionando não é uma arma cinética de controle espacial, devido aos múltiplos comentários feitos por autoridades do governo sobre a necessidade de evitar a geração de detritos que provoquem uma situação de contraforça espacial. (...) Portanto, mantenho minha primeira suposição: interferidores espaciais, guerra eletrônica", argumentou Victoria Samson, diretora sênior de segurança e estabilidade espacial da Fundação Mundo Seguro.
Sob condição de anonimato, uma autoridade militar confirmou ao The Washington Post que esse armamento permitiria ao Pentágono neutralizar satélites inimigos caso fossem utilizados para rastrear ou atacar alvos americanos.
Em resposta à notícia, Moscou declarou que o espaço deve permanecer livre de qualquer tipo de arma. Pequim também pediu para Washington interromper o acúmulo de poderio militar no espaço sideral e adotar medidas concretas para garantir a estabilidade estratégica global.
Uma nova corrida armamentista espacial?
O anúncio ocorre em meio à implementação do projeto "Cúpula Dourada" pelo governo Donald Trump, que visa criar um sistema de defesa capaz de proteger o território dos EUA contra mísseis lançados de diferentes pontos do planeta. O projeto prevê uma arquitetura de defesa antimísseis composta, entre outros elementos, por sensores, satélites e sistemas interceptadores.
Meink também destacou que os interceptadores espaciais, considerados uma tecnologia fundamental do sistema deste projeto, já estão prontos para realizar voos. O general da Força Espacial Michael Guetlein, responsável direto pelo programa "Cúpula Dourada", havia declarado que o desenvolvimento inicial dos interceptadores espaciais já estava em andamento e que o serviço havia realizado dois testes, classificados por ele como "fenomenalmente bem-sucedidos".
Especialistas alertam que a implementação deste projeto poderia levar a Rússia e a China a investir mais ativamente no desenvolvimento de armas ofensivas, o que poderia resultar em uma nova corrida armamentista no espaço.
"A Rússia e a China buscarão novos mísseis, ogivas e sistemas de lançamento capazes de superar essas defesas. Mesmo que existam dúvidas sobre a viabilidade da 'Cúpula Dourada', as autoridades russas e chinesas são obrigadas a levá-la a sério", opinou William J. Perry, do Centro de Stanford para Segurança e Cooperação Internacional.
Há alguns meses, em uma declaração conjunta, os presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e da China, Xi Jinping, expressaram sua preocupação com o projeto e alertaram sobre suas possíveis consequências para a segurança internacional. Moscou e Pequim consideram que o desenvolvimento de um sistema norte-americano de defesa antimísseis com componentes espaciais pode alterar o equilíbrio estratégico.
Chama a atenção o fato de que, há apenas alguns anos, eram justamente os EUA que promoviam iniciativas para limitar a militarização do espaço. Em 2022, Washington anunciou uma moratória sobre testes de mísseis antissatélite de ascensão direta e convidou outros países, incluindo a Rússia e a China, a aderirem à iniciativa.
Agora, porém, os EUA estão entre os principais impulsionadores do desenvolvimento de capacidades militares no espaço.
Possível resposta da Rússia e da China
Analistas avaliam que, após os EUA reconhecerem a implantação em órbita de sistemas de guerra eletrônica e outras capacidades de controle espacial, pode ser apenas uma questão de tempo até que a Rússia e a China desenvolvam ou reconheçam seus próprios sistemas orbitais desse tipo.
"Os EUA também terão de aceitar agora que os chineses e os russos façam ou digam o mesmo. Não acredito que isso vá ser do interesse da segurança nacional americana", concluiu Samson.

Ambos os países já apresentam avanços nessa área. Um exemplo é o satélite chinês Shijian-21, apresentado oficialmente como uma plataforma destinada à limpeza de detritos espaciais.
Em janeiro de 2022, o Shijian-21 aproximou-se do satélite chinês de navegação BeiDou-2 G2 — que havia deixado de funcionar —, acoplou-se a ele e, posteriormente, moveu-o para uma órbita situada cerca de 3 mil quilômetros acima da órbita geoestacionária. Em seguida, o Shijian-21 separou-se do satélite e retornou à órbita geoestacionária.
A missão foi apresentada como uma demonstração de tecnologias para a remoção de lixo espacial; no entanto, a capacidade de se aproximar de outro satélite, acoplar-se a ele e modificar sua órbita também poderia ter aplicações de caráter militar.

