O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, declarou na manhã desta quarta-feira (9) sua intenção de ajuizar um processo de difamação contra o jornal Haaretz e os jornalistas Shlomi Eldar e Ruth Yuval por "fabricarem acusações falsas" em reportagem que revelou que o premiê teria conhecimento prévio dos ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023, mas nada fez a respeito.
A exclusiva do jornal israelense aponta que o premiê teria recebido diversas advertências sobre planos de ataque do grupo palestino com semanas de antecedência, mas que não repassou as informações aos órgãos de segurança.
A matéria do Haaretz se baseia principalmente em torno de uma ligação telefônica no fim de setembro de 2023 entre Netanyahu e o presidente dos Emirados Árabes Unidos, Mohammed bin Zayed, que teria lhe dado o mesmo alerta, que foi então minimizado pelo premiê israelense.
O gabinete de Netanyahu afirma que "ao contrário do alegado, desde o início de setembro até 7 de outubro, não houve qualquer conversa entre o primeiro-ministro e o presidente dos Emirados".
Contestação
Netanyahu argumentou que todas as conversas diplomáticas com bin Zayed ocorrem exclusivamente em seu gabinete através de representante emiradense que chega ao local com um dispositivo criptografado especial, e que "todas essas conversas são documentadas".
Uma verificação dos registros não mostrou "qualquer entrada de um representante dos Emirados no gabinete do primeiro-ministro" naquele período, segundo seu comunicado.
Para além de Bin Zayed, o premiê também rechaçou a acusação de que a inteligência egípcia teria antecipado e informado ao governo de Israel sobre os planos do ataque do Hamas. Segundo ele, esta é "uma alegação já refutada no início da guerra".
Contudo, a jornalista Smadar Perry havia publicado detalhes dessa conversa no jornal Ynet logo após o incidente de 7 de outubro.
Uma das fontes da inteligência egípcia afirmou à repórter que o general Abbas Kamel, chefe da inteligência, ficou "espantado com a indiferença" de Netanyahu diante de seus alertas.
"Nós os advertimos que as coisas iriam explodir em breve, muito em breve, e que seria grande", afirma a fonte.
Transferência de culpa?
Netanyahu caracterizou a revelação como "uma trama maligna com timing político claro, como parte da campanha eleitoral da esquerda".
Em resposta à acusação de omitir a informação das autoridades de segurança, o premiê devolveu as acusações a Ronen Bar, ex-chefe do Shin Bet, e Herzl Halevi, ex-chefe do Estado-Maior, que confirmaram ao Haaretz que a informação de Bin Zayed poderia ter mudado o rumo da resposta israelense ao ataque.
Indicando que as autoridades de segurança chegaram a perceber indícios de uma possível operação do Hamas, Netanyahu declara que "se eles [o] tivessem atualizado a tempo, o terrível massacre poderia ter sido evitado".
A fala se alinha com declarações anteriores em que Netanyahu alegou que oficiais de segurança deliberadamente não o acordaram na manhã de 7 de outubro.
O primeiro-ministro enfrenta agora um cenário de crescentes contestações públicas sobre sua conduta no âmbito da segurança nacional de Israel, pressionado diante de seu julgamento por crimes de corrupção e das eleições de outubro.